sexta-feira, 30 de maio de 2014

Pagina 06 Os Olhos Amarelos

          Abri meus olhos, olhei para cima, e em meus pensamentos apenas incertezas do que presenciei na noite anterior. Meus olhos fixavam as palhas secas sobre mim enquanto eu vagava... O dia amanheceu já havia muito tempo e eu ainda estava aqui, mórbida, deitada na rede. Não vi a Danra minha mãe saindo, ou papai. Na verdade tudo estava muito silencioso. Estava frio e meu corpo tinha receio de levantar, toquei meus braços e os senti muito frio, "eu tinha que sair... levantar". Puxei meu corpo e levantei! Fiz o esforço do mundo e toquei o chão. Senti a areia fria tocando meus dedos.
          "Vou sair um pouco... caminhar..." Pensei.
          Saí da oca e percorri a aldeia sem rumo, vi Turandá em conversa animada com sua mãe, Laciara passando cabisbaixa e Saíra totalmente silenciosa. Ia falar com ela, mas desistir. Ela parecia pior que eu. Atravessei a aldeia e segui pela trilha que levava pro rio. A areia estava muito fria, ventava um pouco, olhei para cima e vi varias nuvens, algumas tapavam o sol por longos minutos, a floresta parecia envolta por uma sombra interminável que o sol não conseguia transpassar. Pensei em ir no rio pelo menos para caminhar, mas algo me chamou a atenção. Parei meio sem reação. Haviam rastros no chão... rastros de cobra, como se uma enorme tivesse cruzado por ali. Abaixei e os toquei."Preciso avisar alguém... mas quem?" Pensei. Enquanto observava os rastros eu lembrava das histórias que contavam para nós. Os velhos sábios sempre falaram de cobras gigantes que desciam do rio em épocas difíceis, algumas para se alimentarem do mal, outras aproveitavam a situação para se libertarem de suas prisões distantes. A voz gentil de Kananciuê reverberavam em meus pensamentos quando nos alertou de tempos difíceis, e pela primeira vez senti medo. Levantei e olhei adiante, Ouvi algumas vozes que vinham da trilha e me escondi nos arbustos.
          - Acho melhor não contar para ninguém sobre os rastros - disse Açuã a um outro jovem índio - poderão interpretar errado, você conhece meu pai...
         - Mas Açuã...
         - Confie em mim, -disse Açuã pondo uma mão no ombro do jovem índio - e vamos continuar procurando o Kambô para o Zuruahá!
         O índio consentiu e ambos seguiram falando até sumirem de vista.
         " eles também viram o rastro... " Pensei comigo, mas onde? Decidi seguir por onde eles vinham. Provavelmente estavam vindo do rio, então segui para lá. No caminho vi Ceci parada ao lado de Moara, ambas conversavam bastante concentradas, senti certo ciumes, pensei em ignorar, mas pensei melhor e fui até elas, talvez estejam falando sobre os rastros.
         Chegando, parei bem de frente a elas. E elas fizeram que nem me viram. Fiquei com ódio mortal, principalmente de Ceci que desde pequinininha era minha melhor amiga. Olhei bem na cara de Moara, se ela tivesse visto minha fisionomia teria corrido, mas ela não viu! Pareciam não me enxergar!
         - Oi Ceci! - Falei incisiva - TUDO BEM?!
         Ceci me olhou como se não estivesse nesse mundo. Senti um arrepio que subiu pelas minha costas quando me encarou, Moara virou-se para mim com um olhar superior, mas não como antes, estava diferente.
          - Vem aqui rapidinho Ceci... - falei puxando ela pelo braço.
          - O que aconteceu Natasha? - Perguntou Ceci sem paciência. - Não vê que eu estava...
          - O que você estava falando com ela? - interrompi de imediato - estou te estranhando Ceci, você nunca gostou de Moara...
         - Nunca gostei,  ou você nunca gostou que eu gostasse? - disse Ceci alterando o tom de voz. - Por favor Natasha, as coisas não estão e não serão como antes, e você ainda fica nesta mesquinharia... Muita coisa está acontecendo e você parece que não está percebendo nada,  fica presa nesse seu mundinho de orgulho e não vê que a sua volta o mundo está girando e se transformando...
        Enquanto Ceci falava minha cara ia caindo no chão. Sentia meu rosto queimar de vergonha, não sabia como me posicionar, e Ceci não parava de falar!
         -... Você prestou atenção na palestra de Kananciuê?  você  ao menos se deu o trabalho de...
        - CHEGA! CHEGAAA!!! - Urrei desequilibrada. - Eu só... - travei tentando achar uma justificativa  - Eu... Eu... Ah, quer saber? Vai lá ficar com sua amiguinha... vocês se merecem mesmo!!! E-eu ti-tinha uma coisa mu-muito importante pra te dizer, - gaguejei - mas vai lá ficar ela tá te esperando, VAI!
       E sai vermelha, as duas provavelmente estavam me olhando com o mesmo olhar de reprovação. Maldita Moara! Minha vontade era de voar nela!  Mas me contive, não sou como elas, nem como Ceci... Aquela... Aquela sem graça!
        A medida que eu resmungava pra mim mesma eu sumia na mata fechada, perdi a cabeça e se alguém falasse comigo eu EXPLODIRIA.
       Parei de trás de uma árvores, me encostei nela e sentei, procurei me contentar apenas nos cantos dos pássaros para ver se acalmava meus nervos. Mas nem isso parecia ajudar. A floresta parecia parada... estática! Quase não ouvia canto nem tão pouco o som das arvores se movendo com o vento. Tapei meu rosto com as mãos... aquela conversa me tirou de mim mesma, até minha respiração estava ofegante. Peguei uma pedrinha no chão e apertei, vi algumas veias se formando sobre a mão. " que raiva de Ceci, QUE RAIVA!" pensava eu enquanto apertava aquela pedra. Pra mim era a cabeça dela que eu apertava, e eu punha toda minha força até que ouvi um grito. Me assustei e levantei. voltei pra trilha e vi lá longe que Moara segurava Ceci nos braços, ela parecia desmaiada! Meu Corpo fez a menção de correr até lá, mas minhas pernas travaram. NÃO! Deixa ela lá, pensei. Deixe que sofra... virei de costas e sumi rumo ao rio. Minutos depois senti o friozinho das águas do rio me abraçando, eu não era louca de entrar, mas molhei meus pés... Peguei algumas pedrinhas e joguei no rio. Lembrei me de Ceci, joguei outras duas com mais força.
         " como ela pode ter me trocado por aquela... - parei enquanto digeria seu nome em minha boca  - aquela Moara!" fiquei ali resmungando não sei por quanto tempo, até que sai do rio e fiz mensão de voltar. Então parei... Olhei pro céu e pensei mil coisas... "como ela pode ter dito que eu não entendi o que o pajé disse? Como!? Eu é que não a vi pra contar, ma senti sim... " pensava enquanto caminhava. Senti uma vontade muito forte de entrar na mata e assim o fiz. Queria sumir! Andar sem rumo... ver ninguém! Andei por alguns minutos sem notar onde ia, saltei alguns troncos, atirei algumas pedras e quando dei por mim, estava na trilha que dava pra caverna que eu encontrei  e que ia mostrar a CECI!!! Quando percebi eu me assustei. Como fui parar ali? Eu nem me lembrava mais dela. Então congelei. Ouvi passos suaves um pouco mais a frente,  eu tinha que me esconder! Foi o meu primeiro pensamento, então ela surgiu... negra como a noite e com a boca ensanguentada... Eu quis correr e gritar, mas munhas pernas travaram. Uma onça negra estava ali, a alguns metros de mim, e sua boca ainda pingava sangue. Ela me olhou com aqueles olhos amarelos e sumiu na mata. Eu fiquei literalmente petrificada... parada... sem.reação! Um onça dessa é um perigo para todos da tribo! Eu tinha que avisar os caciques guerreiros, mas meus pés travaram! Eu então puxei o ar e enchi os pulmões, senti que aos poucos meus músculos voltavam ao normal. E assim foi, eles voltaram... girei para voltar, e ouvi uma voz, reconheci na hora... meus olhos se espremeram no exato momento... era a voz de Moara. " o que ela estava fazendo aqui?" Pensei espremendo um pouco mais meus olhos, eu tinha que saber...
         Segui a trilha enquanto ouvia um barulho de água sacudindo e a voz de Moara pronunciando algo que eu não entendia. Me escondi atrás de uma árvore e olhei tentando ver onde ela estava. Por sorte minhas mãos estavam seguras na árvore, mas minhas pernas barbearia como se instantaneamente sumissem os meus ossos. Moara estava abaixada na entrada da caverna, com uma bolsa de couro cheia de água presa a cintura, a onça estava deitada enquanto Moara lavava sua boca. Senti meu rosto esquentar, minha pele pinicar... Aquela maldita estava criando uma onça escondida de todos. Então tudo apagou, e eu caí inconsciente no chão.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Pagina 05 Eu Morri?

          A ultima coisa que me lembro foi que na noite passada tudo escureceu e eu caí. Senti meu corpo dormente e minha mente vaga, tentei mexer meus dedos, mas pareciam não me pertencerem... quis gritar, mas faltou-me coragem, parecia que minha voz havia sumido também, não tive forçar nem para tocar minha boca... então eu esperei... esperei para ver se algo aparecia ou mudaria, mas nada aconteceu....
          Fiquei nesse mormaço de dormência não sei por quanto tempo até que aquela luzinha surgiu... era tão pequininha que pareceu me cegar. Tapei meus olhos... Olha! Eu consegui movimentar minha mão, olhei para meus pés e os vi flutuando num manto escuro, sem base, sem nada... fixei o olhar novamente na luzinha prateada e ela cresceu... cresceu... cada vez mais se aproximando de mim, mas eu não tive medo. Era confortável, estava confortável na verdade... toda dormência pareceu ser tirada de mim no momento em que ela surgiu. Olhei para os lados e todo aquele breu de horas ou minutos antes, não soube identificar, tomou forma de parede, como se eu estivesse num túnel... escuro... e uma luz que se aproximava inteligentemente. Gritei!
          Minha voz bateu na parede concava  e sumiu engolida pela luz que se aproximava cada vez mais... tentei me levantar, mas meu corpo ainda flutuava. Sacudi as pernas, girei meu tronco e eu continuava no mesmo lugar... sobre o nada, sem subir, inclinar, ou descer... eu girava no meu próprio angulo. Ergui novamente a cabeça e a luz estava a pouco centímetros de meus pés. Eu a contemplei maravilhada, era como um portal que levava ao um outro lugar, totalmente diferente do lugar de onde eu estava. Eu quis largar-me daquela inercia e mergulhar naquele desconhecido e assim o fiz. Foi fácil... e assim me desliguei daquele lugar escuro.
          Senti meu corpo ser sugado, senti moléculas minusculas de luz estourando em minha pele a medida que eu me deslocava naquele vórtice de luz. Senti meu corpo desfigurar como se tornasse uma liga mole e borrachenta. Sumi. Apaguei... quando dei por mim estava pisando num tapete infinito de grama verde como esmeralda. Olhei para o céu e contemplei aquela tarde maravilhosa que me fez perdes as palavras. Eu estava em um campo aberto, a imensidão da gramagem sumia no horizonte infinito, havia colinas e montanhas distantes. Tudo verde. E um céu azul... tão azul quanto... eu não tive palavras para descrever. Chorei. Repugnei-me por isso. Nunca fui de chorar, e agora pareço uma criança boba e sentimental. Limpei meus olhos e caminhei... segui sem rumo naquele paraíso a perder-se de vista. Parecia só, mas não me sentia só... caminhava, mas parecia ter alguem ali comigo, eu rodei tentando ver algo, ou alguem, mas nada. Ninguém! Continuei andando... sem rumo...
        " Eu morri...?" Pensei sem acreditar. Mas como? E é assim o pós morte??? Mas não era assim que me contavam...
          - Não filha... você não morreu... - disse uma voz vinda do nada. Eu saltei sobressaltada.
          - Quem está ai? Perguntei girando-me feito um peão. Olhei para uma direção e vi uma jovem assim como eu. Estava de costas, não deu para reconhecer... tinha um véu na cabeça e uma vestimenta branca que meneava ao toque do vento suave que transitava naquele mundo estranho. Eu gritei, mas ela parecia não me ouvir. A medida que eu corria para ela a mesma distancia permanecia. Senti minhas pernas amolecerem.
         "Não vai adiantar... pensei respirando cansada  ela está se distanciando na mesma velocidade em que eu corro, mas como isso?"
         - Tudo isso aqui é fruto de seu pensamento. - disse a voz masculina novamente. - Você está dentro de você mesma, e precisa começar a conhecer a si própria... Vamos! Arrisque... aproveite...
         - Como assim estou dentro de mim mesma? - Perguntei abrutalhada.
         Houve um silêncio que para mim foi uma resposta. Olhei para a jovem, mas ela não estava mais lá. Urrei... queria mais respostas. Abaixei e esmurrei o chão. Houve então uma onda no tapete infinito de grama esmeralda, como se abaixo de mim houvesse água. Assustei e pulei repreendendo aquilo. A onde se foi tomando todas as colinas e sumindo nas montanhas. Como eu fiz aquilo? Me perguntei. COMO!? Abaixei com cautela e toquei o solo, era duro. finquei meu dedo nele e afundou. Senti um geladinho na ponta do dedo e puxei. Meu dedo saiu melado de uma liga metálica que escorria, tinha a cor de ouro puro. Eu olhei aquilo assustada e me levantei. Corri desenfreada, parecia nunca cansar... corri... corri... corri... nunca me senti tão leve. Senti que podia voar... mas não podia, isso é impossível!!! Pensei. Então saltei... senti meus pés deixando o chão numa facilidade e leveza. Gritei! Mas não de raiva, mas de extase... EU ESTAVA VOANDO!!! E era tão real, tão real!
        Sobrevoei as colinas que eram tão distante por horas afins, mas para mim pareceu apenas alguns minutos, fui no pico das montanhas e toquei as pequenas arvores que lá havia. Desci cortando o ar como se tudo ali me pertencesse, como se eu comandasse tudo aquilo. Desci... desci cada vez mais rápido... tão rapido que me assustei. Não consegui parar. Fechei meus olhos. Ia bater de cara no chão! Então parei, senti meu corpo pesado e endurecido. Abri os olhos e vi como se a grama tornasse o céu. Eu estava parada, de cabeça para cima a um centimetro do chão. Assustei e despenquei. O baque me causou uma baita dor nas costas, que definitivamente queria que passasse, e passou! Assim como eu imaginei...
          - Viu? - disse a voz masculina novamente. - Você está dentro de você, no seu mundo... vamos aproveite, - continuou ela como que me incentivando - seu tempo está quase terminando...
          Eu despertei. Estava no meu mundo e tudo ali me pertencia. Estava confiante! Ergui uma de minhas mãos e senti que o chão tremeu. Ergui a outra mão e fiz brotar do solo uma arvore imensa com galhos e folhas cintilantes. Então tudo começou a tremer. Como se estivesse num terremoto enfurecido. Levei um choque imenso e em segundos senti mãos frias me balançando, me chamando. Abri meus olhos e reconheci aqueles rostos. Estava novamente em meu corpo... pesado e sem graça, novamente. Bateu-me uma tristeza quando me colocaram de pé que quis chorar. Mas me belisquei me repreendendo. Papai me pegou no colo e me levou para oca. A Danra minha mãe não estava... senti moleza, fraqueza... e tudo sumiu de novo. Eu apaguei...

terça-feira, 27 de maio de 2014

Página 04 Tempos de trevas se aproximam

          Na mesma noite de ontem vi uma luz muito estranha sobre nossa aldeia. Eu estava só, tinha acabado de anoitecer, daqui de onde eu estava eu ouvia os cânticos das velhas índias nas fogueiras mais distantes, muitos de nós se reúnem no fim de cada noite, é um encontro para fortalecer nossos laços, é um momento de grande união onde os velhos sábios relembram nossos ancestrais, nossas origens. Era uma noite realmente linda, quase não havia nuvens e o céu estava cravejado de pontos brilhantes. Eu saí de onde estava e caminhei até o centro da aldeia, a cada passo eu ouvia mais fortes os cânticos e os arrastar de pés no solo nu. As musicas falavam de terras verdes distantes, da saudade é da alegria. Os índios entoavam suas notas graves soprando seus instrumentos feitos de bambu enquanto as índias arrastavam os pés pesados no chão, me emocionei quando cheguei, estava realmente lindo!
          Procurei um lugar para me sentar entre todos, de onde eu estava não consegui ver ninguém que me afinasse, cruzei minhas pernas e respirei profundo, havia um cheiro forte de jasmim no ar,  olhei ao redor tentando ver os maços de rosas, ou as oferendas, mas não as vi. Levantei meu corpo para olhar o altar dos velhos índios e vi o grande pajé Yakecan sentado com suas vestes cumpridas na cor de terra. Naquela noite ele usava uma faixa azul em sua cintura que para nós representa estar em paz, e uma trança de fibra de tatúria na testa que significa que esta em comunhão com os céus. Ele estava sentado assim como eu, pernas cruzadas e com o tronco altivo e ereto, ao seu lado estava meu pai e Nhandeara. Estranhamente aquela cena tocou meu coração, senti aquela pontada no peito novamente, mas dessa vez com mais intensidade, abaixei para respirar melhor... na verdade baixei minha cabeça para tentar entender o que eu sentia. Senti então que o cheiro de jasmim se intensificou, olhei novamente para frente e vi o velho pajé Kananciuê que me explicou sobre o Zuruahá hoje mais cedo. Minha mente vôou naquele momento, foi tão além que não pude decifrar... Olhei diretamente no velho índio e vi que ele encarava algo no meio da multidão... tentei ver para onde ele olhava e me assustei ao notar que era Ceci que ele encarava. O que estava acontecendo? Pensei.
          Então ele se levantou. Naquele momento pude ver sua realeza, seus traços com mais perfeição. Seu rosto tinha as marcas dos seculos e seus cabelos longos e brancos a textura suave dos cabelos de uma criança. Trajava uma Unaí branca que descia até seus pés descalços de um tecido que não pude identificar, este era amarrado na sua cintura por varias tranças de varias cores, tinha um colar de jade que pendia do pescoço até a altura do coração, a pena branca que furava a orelha direita parecia iluminada, como uma pequena estrela que se esquecera de ascender aos céus. Quando Kananciuê se levantou, todos silenciaram como se sentissem o mesmo que eu: uma paz suprema e uma ternura nunca presenciada. Antes mesmo que ele falasse senti uma umidade estranha em meus olhos. Eu chorava sem perceber, não sabia o por que... Na verdade não eu que chorava,  era minha alma, minha essência, algo profundo dentro de meu ser. Olhei para os lados e vi que muitos outros sentiam o mesmo que eu.
          - Meus irmãos... - Disse ele com naquele tom de ternura e sabedoria que senti no momento que o vi pela primeira vez - elevemos nossas mentes, nossas vibrações para nos fazermos mais sensíveis as vibrações desse universo, para entendemos com ternura que tempos difíceis já descem pelas montanhas mais distantes, mas que mesmo o conhecendo, afirmo que não estamos sós.
          Olhei profundamente para onde Ceci estava e a contemplei cabisbaixa, novamente aquela dor em meu peito me perfurou como se uma faca entrasse lentamente em meu peito contorcendo todos os músculos de meu coração. Eu não sabia o que estava acontecendo,  mas algo tinha a ver com ela. Eu chorei.
          - ... caminhei muito por essas terras, por essas matas que hoje vós outros caminham, conheci povos que se destruíram por ambição do ouro e da prata, mas hoje olhando para vocês eu sinto que a paz aqui reina e que não é aqui, entre vocês, que está o Mandarã.
          houve uma pequena movimentação entre todos, um pequeno alvoroço foi acalmado por um simples movimento de mão. O velho pajé ergueu uma das mãos as jades em seu peito tilintaram como pequenos cristais se tocando e todos voltaram a se recompor.
         - Calma meus irmãos, pois sois uma tribo pacífica, sem erros ou pecados coletivos, foram muito bem colocados aqui por nosso grande e amado Deus. - O velho pajé olhou para cima e orou em silêncio. Parecia que havia nele um contato direto com as estrelas, todos abaixaram suas cabeças em redenção suprema. Novamente o cheiro de jasmim tocou a todos naquela hora soturna.
           - É chegada a hora da grande escolha... novas forças se deslocam para o encontro dessas terras, e vós outros têm que estar preparados. Escolherei dentre vós um que servirá de graças, de esteio, como uma coluna de sustentação para o que está para chegar. Um mundo novo estas surgindo e terão que.se preparar para o porvir. Novos ensinamentos eu vos darei, trazendo novas iniciações para fortalecer suas raízes nesse mundo. És chegada a hora da preparação, da evolução de vossas forças, de vossas mentes...
          Eu ouvia as palavras daquele homem como se um Deus ali estivesse entre nós para nos abraçar, um Deus piedoso que nos amava... A Danra minha mãe sempre disse entre linhas desse momento que vivo hoje, como se já pressentisse que aconteceria, senti-me mais confiante sem saber para o que, feliz e irradiante como se uma chama nova e ardente queimasse todas minhas fraquezas e incertezas. Por um momento quis levantar e gritar o amor e a paz que por hora eu sentia transbordar de todo meu ser, eu sabia que todos sentiam o mesmo. Yakecan estava cabisbaixo, como que em oração assim como papai e Nhandeara. Kananciuê por fim finalizou sua palestra de amor e esperança, deixando em mim uma afirmação que eu não entendia... lembrei me de como eu pressenti isso a alguns dias... Algo está para acontecer, e não sei o por que, mas sinto medo por Ceci. O velho índio terminou sua última frase e curvou-se para nós em sinal de respeito e profunda humildade. Todos se levantaram e urraram seus cantos, suas vozes graves, seus instrumentos de bambu e caixas de madeira, todos tapeavam em seus lábios com notas agudas que se misturavam ao brilho intenso das estrelas sobre nós. Me senti, naquela noite distante, uma nova pessoa... Senti sono, muito sono após o grande índio ter sentado novamente, eu adormeci caindo no chão...

segunda-feira, 26 de maio de 2014

página 04 Pressentimentos

          O motivo de meu pai não ter dormido em casa me deixou muito preocupada, a Danra minha mãe permaneceu em silêncio mais da metade do dia, por mais que eu tentasse ela não falava. Isso é uma coisa que eu realmente não gosto... Esse silêncio todo que envolve as Danras da aldeia, tenho certeza que alguma coisa está acontecendo, eu sinto isso, não sou besta! E pra piorar, Ceci simplesmente somiu...
          Hoje está tendo uma grande movimentação na tribo, tive a sensação de que vi alguns índios Sateré transitando por aqui, isso não é bom,  sempre mantivemos distância deles não por serem perigosos, mas por serem extremamente espirituais... Estive pensando e acabei ligando os pontos, papai sumiu assim que foi chamado ao encontro do pajé,  e a agora esses índios Sateré transitando por aqui... Muito estranho.
          Segui caminhando sem rumo pela aldeia, definitivamente não gosto de ter um dia assim, já basta o que tive ontem. Até a Danra minha mãe me deixou em paz hoje,  vou aproveitar pra ver os homens da tribo...
          Perguntei pra Açuã onde estava indo,  Açuã é um índio de postura nobre, sua linhagem é nobre, ele é filho do cacique arco de fogo, o Nhandeara amigo de papai,  então é bem provável que ele saiba o que esteja acontecendo.
          - Tempos difíceis se aproximam Natasha, - disse ele com certa ansiedade - os grandes da tribo estão em reunião desde ontem, não deu tempo de perguntar pro meu pai ele também saiu ontem assim que chegou...
         - O meu também... - Respondi decepcionada. Mas o que você acha que é?
         quando ia responder, Açuã foi chamado por um outro índio. Açuã parecia já esperar esse chamado e foi sem nem dar o luxo de me responder, fique possessa! Vi que os dois de juntaram a outros índios de mesma idade, aquilo atiçou minha curiosidade, o que estavam falando? Tinha que descobrir... Me escondi atrás de umas das ocas e fixei minha atenção neles... Por mais que tentasse não conseguia ouvir com nitidez, lembro apenas da palavra Zuruahá... O que seria isso? Voltei por um momento para dentro de mim mesma para tentar lembrar o que isso significava, se lembrava o que isso significava, pois essa palavra não me é estranha... Não achei a resposta. Olhei pra frente e vi Ceci passando, senti um choque n no peito, meu corpo me fez dar um passo pra ir até ela, mas eu mesma bloqueei, depois procuro ela... O que seria Zuruahá?  Tinha que descobrir...
          Açuã e os outros seguiram sumindo na mata fechada, aproveitei pra tentar descobrir o que seria isso é não foi difícil descobrir por onde começar... Vou perguntar a Ceci, ela deve saber de algo. Ceci estava  conversando com Moara,. Cheguei sorrateira por trás de Moara, Ceci se assustou, Moara nem se mexeu.
         - Onde você estava? - Perguntou- me Ceci com seu jeito meigo.
         - Eu é que te pergunto isso! - Respondi com a minha ignorância habitual. - Te procurei ontem o dia todo... - Olhei de canto de olho pra Moara e disse - venha, tenho que te fazer uma pergunta...
          Saímos tentando ficar o mais distante possível. Dentro da aldeia existe um local que é estritamente para os velhos índios, e foi pra lá que levei Ceci, é um lugar perfeito pra conversar sem sermos interrompidas,  é como uma praça,  com troncos espalhados e algumas árvores cópulosas para dar bastante sombra. Sentamos!
         - O que é Zuruahá?  - Perguntei logo de cara, Ceci me encarou sem entender.
         - O que?
         - O que é Zuruahá?
         - Zuruahá é um veneno... - Disse una voz.
         Olhei pra trás e vi um índio velho sentado em um dos troncos. Seu olhar foi o que mais me marcou: um olhar secular, numa tonalidade que nunca vira antes. Um velho pajé com um semblante altivo, roupas tão antigas quanto às primeiras árvores a nascerem nesse planeta, seus cabelos longos e brancos tocavam -lhe a cintura de uma forma tão suave quanto a brisa matinal.
          - Desculpas senhor...- falei meio incomodada pela sutileza do velho índio. -Não os vimos aí antes.
         - Sou o Águia Dourada, o Kananciuê... Perdoe - me não ter me mostrado antes.
         - Nunca tinha o visto por aqui...
         - Não queria saber sobre o veneno Zuruahá? - Desconversou o velho índio.
         - Veneno? - Pensei lembrando da feição de Açuã.
         - Zuruahá é um veneno raro extraído de sapos e ervas perigosas, não se deve pruduzir ao menos que se esteja em tempos difíceis. - Kananciuê parou fixando o olhar profundo nas pequenas índias, passou de uma a outra ficando alguns segundo em Ceci, elas não perceberam, mas o velho índio espremeu um pouco os olhos olhando no interior de Ceci.
         - Não se metam com isso, as coisas logo se resolverão. Pequenas por favor foquem suas atenções para dentro de vocês, em breve precisaremos do que vocês teem para dar. - Essa última frase falou fixando em Ceci.  Natasha percebeu e a encarou, Ceci a olhou também, quando por fim voltaram ao velho índio o mesmo havia desaparecido. Fiquei sem entender... Novamente aquela pontada em meu peito me fez tremer. Alguma coisa estava prestes a acontecer...
       
     


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Pagina 03 Dia Fatídico

          Comi meu niguara sem vontade alguma. Definitivamente o dia começou péssimo pra mim. Não sei o por que, mas amanheci entediada.
          Saí da oca logo cedo... olhei o céu azul com poucas nuvens, quase não ventava, havia alguns pássaros voando lá e cá, que saco! Pensei, poderia estar nublado para poder chover, assim eu poderia ser poupada das lições diárias de como se comportar como uma boa índia e quem sabe se minha mãe, a Danra, me deixasse dormir um pouco mais. Procurei logo Ceci entre todos que transitavam na aldeia, não a achei. Mais um motivo para achar esse dia um saco. Achei logo de cara Moara, - odeio você! Pensei assim que passei por ela, fiz questão de nem olhar... encontrei tagarelando com outras índias a  Saíra, não fiz questão de saber do que estavam falando e prossegui...aproveitei para ir até o Motí, ( Motí é o espaço aberto e descampado no centro da aldeia, onde ocorre rituais de dança, lutas etc...  *nota de M. Lob ) a essas horas os homens da tribo estão se preparando para as danças de venturas e prosperidade que sempre fazem assim que o sol sai. No Moti vi apenas oito índios cumprindo o ritual, achei estranho pois geralmente são quarenta dentre os mais velhos e os mais novos. Olhei ao redor para procurar alguma Danra para perguntar o motivo, mas não encontrei ninguém. Então no meio de algumas índias que observavam como eu o ritual de dança acabei vendo Ceci passando despercebida, corri até ela... mas ela já havia sumido. - Onde foi parar ela? Pensei. O dia prosseguiu tão chato quanto começou. Não vi Ceci durante aquele dia...
          A tarde aproveitei para tomar banho no rio, e para minha surpresa quem estava lá? MOARA! A cumprimentei e mergulhei seguindo logo para a outra margem do rio. Ali fiquei observando. Senti a água fria tocando meu corpo, meus cabelos se perdendo nas marolas do rio, quis dormir ali, mas sabiamente não o fiz, pois me conheço muito bem... tenho muita facilidade de dormir, e se o fizesse ali logo engasgaria com a água dando motivo para que Moara zombasse de mim durante meses. Engoli o sono, fiquei a observando... 
         Moara tem três anos a mais que eu, é esnobe, nariz empinado, bunda empinada... que ódio! Não sei o porque sinto isso dela, na verdade ela nunca me bateu... bem, - lembrei-me, as poucas vezes que puxou meu cabelo eu puxei os dela de volta, mas tirando isso, não sei por que a odeio tanto, talvez seja por que ela tem esse corpo que... ah, deixa pra lá.
         Vi,  enquanto a observava que ela não falava com ninguém no rio, havia três outras índias perto dela, mas para  Moara parecia que não havia ninguém. Guaraci e Iaciara pulavam de um lado jogando água uma nas outras de um lado, Turandá e Ximbyra conversavam despenteando seus cabelos do outro lado e Moara no meio, ela parecia fixar seu olhar na mata... que estranho! Pensei. O que ela tanto olhava? Só havia macacos lá, e estranhamente MUITOS macacos...
          Ficamos todas ali por vários minutos, vez ou outra aparecia outras índias, entravam um pouco e saiam, mas eu e Moara permanecíamos no rio. Moara continuava fixa olhando nas arvores, como se estivesse hipnotizada. Vez ou outra descia um macaco caminhava no leito do rio, bem próximo a ela e subia novamente como se despertasse de um transe... tentei entender, mas deixei pra lá. Com um tempo Saíra surgiu gritando meu nome, a Danra minha mãe queria ter comigo. Saí do rio...
         Assim foi meu dia, parado! Logo papai chegou com Nhandeara, seu amigo, pareciam cansados. Ele ficou um pouco e saiu a chamado do grande pajé Yakecan, minha mãe pareceu meia excitada, não entendi, senti uma pontada estranha no peito, fiquei pensando em perguntar o que estava acontecendo, mas desistir... minha mãe como Danra tem seus segredos e uma coisa que aprendi foi a respeitar os mais velhos mesmo quando a sua vontade é mais forte que a lei que nos rege... A noite seguiu tranquila, fui dormir... papai, aquela noite, não voltou para casa...


















quinta-feira, 22 de maio de 2014

Pagina 02 Saindo da Trilha

          Logo após os treinamentos habituais dos homens da tribo eu e Ceci seguimos rumo ao rio. Todos nem nos viram sair, fomos segundo Ceci como pássaros. Estávamos muito animadas aquela tarde, eu principalmente, pois se aproximava o dia em que começaríamos a ter palestras com as Danras da aldeia. Eu tinha uma serie de perguntas a fazer e sugerir algumas coisas também, uma delas com certeza seria: liberdade e menos afazeres... Ceci me apoaria certamente. Ai dela se não... sorri.
           Saímos da aldeia e seguimos pela trilha titulada pelos mais velhos como Saraboya, a língua da serpente. Sempre me perguntei o por que desse nome, mas minha mãe, a Danra, nunca me falou, nem Ceci que era filha do cacique Nhandeara, um dos mais influentes de nossa tribo. Acredito que seja pelo fato de haver varias Anhangueras por aqui...
          Caminhamos por alguns minutos até sair da trilha que destoava da vegetação intensa da floresta. Ceci, automaticamente, seguiu rumo a trilhazinha que dava pro rio, mas eu logo a puxei para um outro rumo. Tinha a chamado ali não para tomarmos banho, mas para mostrar-lhe uma coisa que vi a uns dias atrás. Ceci se assustou, seus olhos doces quase me convenceram a não prosseguir, mas me conheço bem... e a fiz vir comigo.
          Na curva que a Saraboya faz que se une a trilha do rio existe uma pedra enorme que se caminhar depois dela vai encontrar uma outra trilha, essa acredito eu, não é muito conhecida, pois não vi pegada alguma nela. Ceci quando viu que eu ia na frente abrindo caminho com minhas mãos teve medo, e quase recuou. Eu logo intervi: - Se você voltar e não vier comigo eu nunca mais olho na sua cara Ceci! - disse eu para ela focando bem nos seus olhos doces e amendoados. Ceci titubeou um pouco, engoliu algo a seco e fez com a cabeça que sim, ia me seguir. É óbvio que eu não poderia deixar Ceci voltar, ela ia contar pra Danra mãe dela, que com certeza ia contar pra Nhandeara e logo ia cair nos ouvidos de meu pai. Eu não estava louca... Ceci tinha que vim comigo.
          Caminhamos na mata fechada por alguns minutos até encontrar a trilha que tinha dito. Esta era estreita e sem seixos no chão. Ceci se emocionou, pois a trilha tinha um brilho diferente, era fácil encontrar alguns cristais jogados aqui e ali, pedi para que Ceci não os pega-se, pois o melhor estava por vir. 
          Fomos seguindo pela trilha estreita enquanto conversávamos animadamente, eu como sempre, estava a frente com um galho que quebrei, era a "minha espada" e claro poderia servir de arma caso aparecesse alguma onça.
          - Ceci -disse eu - assim que atravessarmos aquelas arvores - eu apontei para frente onde havia varias araucárias e  jandiras, você nunca mais vai ser a mesma, quando eu vim aqui pela primeira vez, quase não voltei para casa. Ceci ficou super animada e excitada e começou a falar pelos cotovelos, eu a tive que conter.
         Seguimos procurando ser as mais silenciosas, pois já estava entardecendo e logo anoiteceria. Se não fossemos rápidas ficaríamos perdidas na noite escura da floresta e como conheço Ceci logo ia entrar em desespero. Chegamos nas araucarias e jandiras, passamos por elas sem demora, eu pedi para que abaixássemos, e assim fizemos. Então tudo silenciou. Até os pássaros pareciam ter parado de cantar, aquela sensação de bem estar e êxtase que eu senti da primeira vez surgiu como nunca, eu olhei para Ceci e vi que seus olhos brilhavam como pequenos diamantes. Havia um arbusto bem na nossa frente, eu delicadamente abaixei para que pudêssemos ver a caverna a frente. Foi então que ouvimos um estalo, alguém que não era nem eu nem Ceci estava próximo. Meu coração parou, Ceci pareceu não se importar, estava quase em transe. Eu ouvi vozes estranhas e desesperei. soltei o arbusto e ele tampou em seguida o que eu ia mostrar a Ceci. Puxei Ceci pelos braços e corri sem olhar para trás. Ceci parecia em outro mundo, nunca a vi daquele jeito, ela era mais sensível que eu, fiquei com certa inveja, mas segui correndo até atravessarmos a pedra que tampava a trilha em que estávamos. 
          Chegando na aldeia vi que todos pareciam preocupados, pois já estava anoitecendo e eu e Ceci havíamos sumido. Logo cada uma foi para suas ocas ouvir os sermões de nossos pais. Fiquei preocupada aquela noite... de quem eram as vozes? E como Ceci se mostrou sensível...





















          

Pagina 02 Dia simples

          Era umas cinco da manhã quando eu levantei. Minha mãe tinha acabado de preparar o niguara do papai que ia sair para buscar os Açuãs para os nossos rituais. Açuãs são galhos sagrados que só podem ser colhidos nos primeiros raios do sol, por isso que os homens da tribo saem tão cedo, eles são de uma arvore rara que nasce ao lado de cachoeiras fortes como a que temos a alguns quilometros daqui, eu ainda não tive a chance de conhece-la, mas certamente irei. Papai sai sempre junto de Amanary que é o pai de Ceci, inclusive acredito que ela já esteja acordada, pois houve certa movimentação na oca dela essas ultimas noites. Inclusive, tenho percebido Ceci muito agitada e distante, vou perguntar mais tarde a ela o que está acontecendo.
         Depois que papai saiu parece que tudo voltou ao silencio costumeiro, logo fui chamada pela Danra que é a minha mãe, tenho que a chamar assim, pois é uma classificação que ela conseguiu se sacrificando em um ritual, eu explico isso depois em uma outra pagina de meu diario. Minha mãe, a Danra, assim que papai saiu me chamou para tomar meu niguara, Niguara é uma comida nossa, somente nossa, feita de raizes e folhas estranhas, foi desenvolvida segundo minha mãe, pelos deuses da força Aui, eu ainda não sei quem são eles, mas ela costuma dizer que estão dentro de nós, como o nosso coração, ossos e tal... acho tudo isso um saco, não gosto dessas coisas, mas apesar de ser muito jovem sei que terei que aprender, ainda mais sendo filha de quem sou.
          Logo amanheceu, e eu já sai da oca, fui logo procurar Ceci. Demorei para acha-la, mas achei ela sentada aos pés de uma araucaria perto da nossa aldeia. Ela está estranha, nunca foi assim. Perguntei para ela, mas ela não me respondeu, estava nervosa.... Ficamos ali por alguns minutos, logo consegui ver o sorriso puro de Ceci, chamei ela para tomar banho no rio, mas ela se recusou, pois apontou o nariz pra Morara que estava nos observando de longe. Odeio Moara, ela é intrometida, feia, chata e fica se metendo onde não se deve. Chamei então Ceci para procurarmos as outras meninas para fazer algo, ela parece ter se animado, mas logo me chamou a razão da hora de preparar o niguara dos homens, eu tinha me esquecido que agora iremos assistir nossas mães fazer a comida para já ir aprendendo.
          O tempo passou, brincamos e agora estava cada uma em suas mães para assisti-las cozinhando. Que saco isso! Queria era estar correndo na mata sem hora para voltar, as vezes sinto que nasci foi no corpo errado, vejo os irmãos das outras meninas mais livres que nós...
          Minha mãe mexia a Içará com uma colher enorme enquanto pronunciava umas palavras que eu não entendia direito, era uma reza que somente as Danras da aldeia faziam, não sei pra que, mas a comida ficava uma delicia...

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Pagina 01 - Banho no rio

         Vou começar contando a partir do dia em que eu estava tomando banho num rio. Bem, naquela epoca eu tinha seis anos, lembro-me muito bem. Em breve eu já estava pronta para receber as primeiras aulas antes das nossas iniciações. Tudo era lindo naquela época, nosso povo caminhava pela floresta de vocês com liberdade e alegria. Não havia guerra entra nada e ninguém. Inclusive o sol que queima nossas peles hoje não é o mesmo sol que me lembro muito bem, hoje é nítido sua ardência, seu brilho forte, por isso procuro não me mostrar para muitos...
         Naquela época, eu, quando criança costumava brincar num rio próximo a nossa aldeia, ele era frio fundo e escuro, eu gostava muito dele,  não havia quem não gostasse dele - sorriu - os velhos o chamava de fio de prata, porque apesar de escuro tinha um brilho intenso que no crepúsculo abraçava uma outra tonalidade. Esse rio nasceu de um cataclismo ocorrente muito antes de nossa tribo chegar aqui nessas terras, mas essa história eu conto em um outro momento - (anotei esse parentese para perguntar mais para frente a respeito desse ocorrido - nota do autor).
          Lembro que naquele dia demoramos mais para voltar pra aldeia, a água estava relativamente boa de mais para sairmos - disse ela sorrindo - era eu, Ceci e Moara ( Nomes que eu escolhi para substituir o nome que ela me passou, pois não sei como escrever devido a língua ser quase indecifrável, pelo menos para mim - nota do autor). Ceci e eu eramos como carne e unha, pra onde uma ia a outra ia atrás, eu não gostava da Moara, era muito chata, implicante, nariz em pé, eu não gostava dela, ao contrario da Ceci que era pequininha, meiga, e linda. Perdi as contas das brigas que eu tive com Moara, e não eram brigas como as mulheres de vocês brigam não, eu ainda vou contar para você escrever algumas que tivemos, mas hoje não. - disse ela - Voltando ao rio... aquele dia ficamos quase duas horas a mais do que costumávamos, Moara deu a ideia para subirmos nadando o rio para ver até onde ele daria, eu gosto de desafio e me prontifiquei logo em querer ir na frente, Ceci ficou com medo, mas eu logo a convenci. Nadamos alguns minutos pois o rio era vivo e intenso, logo cansamos. Ceci ficava sempre para trás e Moara a xingava de todo e qualquer nome, com certo tempo eu já não mais queria subir, queria voltar, não por mim, mas por Ceci que parecia está ficando azul com o gelo da água -sorriu - então começamos a descer pela margem do rio, com um tempo ouvimos o irmão de Moara gritar nossos nomes, ninguém respondeu, não estávamos muito longe, mas a uma distancia que dava para ouvir o miado da voz dele, minutos depois ouvimos outras vozes, já estavam ficando preocupados, mas quem se importa...? tava tão legal! Eu e Moara nos acabávamos na risada, como era emocionante teimar com os mais velhos, ao contrario de Ceci que ficava implorando para que voltássemos. Naquele dia eu até briguei com ela, Moara puxou o cabela da bichinha... então a brincadeira acabou... o irmão de Moara nos achou enquanto ficamos perdendo tempo rindo e brigando com Ceci.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Pequenas Explicações

          Boa noite! Estou organizando aqui meus textos para começar a publicar o diário. Cheguei em casa agora, tá um calor do caramba, e estou muito animado para compartilhar com vocês o que eu tenho aqui. Bem, já tem alguns dias que eu não vejo a Natasha... ela é assim mesmo, as vezes passa dias sem dar as caras, e de repente aparece, linda como sempre. Vou aguardar um pouco mais para ver se ela aparece, mas pelo jeito e pelo horário... acho que hoje eu não a verei. De qualquer forma foi começando a por as coisas em ordem para começar meu trabalho.
          Gostaria de deixar claro que farei de minhas anotações uma especie de livro, acho que vocês vão gostar mais, dependendo do que eu conseguir fazer escreverei na visão da Natasha, primeira pessoa, ou na minha visão, terceira pessoa.




M. Lob

Sobre Mim... Maurycio Lobato

              Me chamo Maurycio Lobato, tenho 31 anos, sou escritor. Criei esse blog para compartilhar com as pessoas as experiencias que tive com essa fantástica criatura, menina, mulher que encontrei a alguns anos em minha vida. É uma india que prefiro chamar pelo nome de "Natasha". Nome comum para não causar estranheza para quem ler, foi opção minha titula-la por esse nome, já que o seu nome original, por pedido dela, não irei revelar.
              Natasha, hoje, não é nem menina nem é mulher, sua idade vai além da compreensão da qual estamos habituados, ela definitivamente não se enquadra ao padrão de beleza conhecido na atualidade pelo simples motivo: Ela está além de tudo o que você e até eu tenha visto. Sua pele morena, tem um quê diferente, pelo o que eu vejo e a conheço, é de uma textura semi-radiante, cor de âmbar, seus cabelos não há shampoo e/ou condicionador nesse mundo que consiga deixa-los igual. Seus olhos, como virão nas futuras narrativas, meneam por alguns tons, mas o normal, na qual sempre a vejo é de um caramelho/ esverdeado, não sei explicar... Imagine essas duas cores em um olho e terá uma clara imaginação de quem é Natasha.
            Natasha tem um temperamento forte, isso eu percebi no momento em que fomos apresentados, sua altura é mediana, assim como a minha, e sua desenvoltura é sem igual. É algo sublime, ereto, superior, tente imaginar e talvez chegará onde eu quero que chegue. Ela não me deixa tirar fotos, nem tão pouco filma-la, acredite... eu já tentei... e tenho alguns hematomas no braço até hoje por isso... rssss eu, definitivamente não ousaria contraria-la. Jamais! Acredito que poucos consiga no atual mundo em que vivemos.
           Esse Blog, esse diario, esse semanario, sei lá como definirei, surgiu do principio como havia dito no inicio, de mostrar as pessoas o que está oculto em meio as florestas densas de nossa Mata Atlantica e do mundo. Natasha é apenas uma, não é a maior nem a melhor, não sei, eu digo porque é a minha opinião, mas ela é apenas uma pontinha do iceberg do tanto que podemos aprender com a vida oculta dos povos nômades escondidos.
          Bem, espero que gostem, pois começarei hoje a narrar um pouco do arsenal que tenho aqui em mãos sobre tudo isso. Vou tentar fazer de uma forma que se torne tão intenso como o é para mim!
       

M. Lob