terça-feira, 27 de maio de 2014

Página 04 Tempos de trevas se aproximam

          Na mesma noite de ontem vi uma luz muito estranha sobre nossa aldeia. Eu estava só, tinha acabado de anoitecer, daqui de onde eu estava eu ouvia os cânticos das velhas índias nas fogueiras mais distantes, muitos de nós se reúnem no fim de cada noite, é um encontro para fortalecer nossos laços, é um momento de grande união onde os velhos sábios relembram nossos ancestrais, nossas origens. Era uma noite realmente linda, quase não havia nuvens e o céu estava cravejado de pontos brilhantes. Eu saí de onde estava e caminhei até o centro da aldeia, a cada passo eu ouvia mais fortes os cânticos e os arrastar de pés no solo nu. As musicas falavam de terras verdes distantes, da saudade é da alegria. Os índios entoavam suas notas graves soprando seus instrumentos feitos de bambu enquanto as índias arrastavam os pés pesados no chão, me emocionei quando cheguei, estava realmente lindo!
          Procurei um lugar para me sentar entre todos, de onde eu estava não consegui ver ninguém que me afinasse, cruzei minhas pernas e respirei profundo, havia um cheiro forte de jasmim no ar,  olhei ao redor tentando ver os maços de rosas, ou as oferendas, mas não as vi. Levantei meu corpo para olhar o altar dos velhos índios e vi o grande pajé Yakecan sentado com suas vestes cumpridas na cor de terra. Naquela noite ele usava uma faixa azul em sua cintura que para nós representa estar em paz, e uma trança de fibra de tatúria na testa que significa que esta em comunhão com os céus. Ele estava sentado assim como eu, pernas cruzadas e com o tronco altivo e ereto, ao seu lado estava meu pai e Nhandeara. Estranhamente aquela cena tocou meu coração, senti aquela pontada no peito novamente, mas dessa vez com mais intensidade, abaixei para respirar melhor... na verdade baixei minha cabeça para tentar entender o que eu sentia. Senti então que o cheiro de jasmim se intensificou, olhei novamente para frente e vi o velho pajé Kananciuê que me explicou sobre o Zuruahá hoje mais cedo. Minha mente vôou naquele momento, foi tão além que não pude decifrar... Olhei diretamente no velho índio e vi que ele encarava algo no meio da multidão... tentei ver para onde ele olhava e me assustei ao notar que era Ceci que ele encarava. O que estava acontecendo? Pensei.
          Então ele se levantou. Naquele momento pude ver sua realeza, seus traços com mais perfeição. Seu rosto tinha as marcas dos seculos e seus cabelos longos e brancos a textura suave dos cabelos de uma criança. Trajava uma Unaí branca que descia até seus pés descalços de um tecido que não pude identificar, este era amarrado na sua cintura por varias tranças de varias cores, tinha um colar de jade que pendia do pescoço até a altura do coração, a pena branca que furava a orelha direita parecia iluminada, como uma pequena estrela que se esquecera de ascender aos céus. Quando Kananciuê se levantou, todos silenciaram como se sentissem o mesmo que eu: uma paz suprema e uma ternura nunca presenciada. Antes mesmo que ele falasse senti uma umidade estranha em meus olhos. Eu chorava sem perceber, não sabia o por que... Na verdade não eu que chorava,  era minha alma, minha essência, algo profundo dentro de meu ser. Olhei para os lados e vi que muitos outros sentiam o mesmo que eu.
          - Meus irmãos... - Disse ele com naquele tom de ternura e sabedoria que senti no momento que o vi pela primeira vez - elevemos nossas mentes, nossas vibrações para nos fazermos mais sensíveis as vibrações desse universo, para entendemos com ternura que tempos difíceis já descem pelas montanhas mais distantes, mas que mesmo o conhecendo, afirmo que não estamos sós.
          Olhei profundamente para onde Ceci estava e a contemplei cabisbaixa, novamente aquela dor em meu peito me perfurou como se uma faca entrasse lentamente em meu peito contorcendo todos os músculos de meu coração. Eu não sabia o que estava acontecendo,  mas algo tinha a ver com ela. Eu chorei.
          - ... caminhei muito por essas terras, por essas matas que hoje vós outros caminham, conheci povos que se destruíram por ambição do ouro e da prata, mas hoje olhando para vocês eu sinto que a paz aqui reina e que não é aqui, entre vocês, que está o Mandarã.
          houve uma pequena movimentação entre todos, um pequeno alvoroço foi acalmado por um simples movimento de mão. O velho pajé ergueu uma das mãos as jades em seu peito tilintaram como pequenos cristais se tocando e todos voltaram a se recompor.
         - Calma meus irmãos, pois sois uma tribo pacífica, sem erros ou pecados coletivos, foram muito bem colocados aqui por nosso grande e amado Deus. - O velho pajé olhou para cima e orou em silêncio. Parecia que havia nele um contato direto com as estrelas, todos abaixaram suas cabeças em redenção suprema. Novamente o cheiro de jasmim tocou a todos naquela hora soturna.
           - É chegada a hora da grande escolha... novas forças se deslocam para o encontro dessas terras, e vós outros têm que estar preparados. Escolherei dentre vós um que servirá de graças, de esteio, como uma coluna de sustentação para o que está para chegar. Um mundo novo estas surgindo e terão que.se preparar para o porvir. Novos ensinamentos eu vos darei, trazendo novas iniciações para fortalecer suas raízes nesse mundo. És chegada a hora da preparação, da evolução de vossas forças, de vossas mentes...
          Eu ouvia as palavras daquele homem como se um Deus ali estivesse entre nós para nos abraçar, um Deus piedoso que nos amava... A Danra minha mãe sempre disse entre linhas desse momento que vivo hoje, como se já pressentisse que aconteceria, senti-me mais confiante sem saber para o que, feliz e irradiante como se uma chama nova e ardente queimasse todas minhas fraquezas e incertezas. Por um momento quis levantar e gritar o amor e a paz que por hora eu sentia transbordar de todo meu ser, eu sabia que todos sentiam o mesmo. Yakecan estava cabisbaixo, como que em oração assim como papai e Nhandeara. Kananciuê por fim finalizou sua palestra de amor e esperança, deixando em mim uma afirmação que eu não entendia... lembrei me de como eu pressenti isso a alguns dias... Algo está para acontecer, e não sei o por que, mas sinto medo por Ceci. O velho índio terminou sua última frase e curvou-se para nós em sinal de respeito e profunda humildade. Todos se levantaram e urraram seus cantos, suas vozes graves, seus instrumentos de bambu e caixas de madeira, todos tapeavam em seus lábios com notas agudas que se misturavam ao brilho intenso das estrelas sobre nós. Me senti, naquela noite distante, uma nova pessoa... Senti sono, muito sono após o grande índio ter sentado novamente, eu adormeci caindo no chão...