segunda-feira, 26 de maio de 2014

página 04 Pressentimentos

          O motivo de meu pai não ter dormido em casa me deixou muito preocupada, a Danra minha mãe permaneceu em silêncio mais da metade do dia, por mais que eu tentasse ela não falava. Isso é uma coisa que eu realmente não gosto... Esse silêncio todo que envolve as Danras da aldeia, tenho certeza que alguma coisa está acontecendo, eu sinto isso, não sou besta! E pra piorar, Ceci simplesmente somiu...
          Hoje está tendo uma grande movimentação na tribo, tive a sensação de que vi alguns índios Sateré transitando por aqui, isso não é bom,  sempre mantivemos distância deles não por serem perigosos, mas por serem extremamente espirituais... Estive pensando e acabei ligando os pontos, papai sumiu assim que foi chamado ao encontro do pajé,  e a agora esses índios Sateré transitando por aqui... Muito estranho.
          Segui caminhando sem rumo pela aldeia, definitivamente não gosto de ter um dia assim, já basta o que tive ontem. Até a Danra minha mãe me deixou em paz hoje,  vou aproveitar pra ver os homens da tribo...
          Perguntei pra Açuã onde estava indo,  Açuã é um índio de postura nobre, sua linhagem é nobre, ele é filho do cacique arco de fogo, o Nhandeara amigo de papai,  então é bem provável que ele saiba o que esteja acontecendo.
          - Tempos difíceis se aproximam Natasha, - disse ele com certa ansiedade - os grandes da tribo estão em reunião desde ontem, não deu tempo de perguntar pro meu pai ele também saiu ontem assim que chegou...
         - O meu também... - Respondi decepcionada. Mas o que você acha que é?
         quando ia responder, Açuã foi chamado por um outro índio. Açuã parecia já esperar esse chamado e foi sem nem dar o luxo de me responder, fique possessa! Vi que os dois de juntaram a outros índios de mesma idade, aquilo atiçou minha curiosidade, o que estavam falando? Tinha que descobrir... Me escondi atrás de umas das ocas e fixei minha atenção neles... Por mais que tentasse não conseguia ouvir com nitidez, lembro apenas da palavra Zuruahá... O que seria isso? Voltei por um momento para dentro de mim mesma para tentar lembrar o que isso significava, se lembrava o que isso significava, pois essa palavra não me é estranha... Não achei a resposta. Olhei pra frente e vi Ceci passando, senti um choque n no peito, meu corpo me fez dar um passo pra ir até ela, mas eu mesma bloqueei, depois procuro ela... O que seria Zuruahá?  Tinha que descobrir...
          Açuã e os outros seguiram sumindo na mata fechada, aproveitei pra tentar descobrir o que seria isso é não foi difícil descobrir por onde começar... Vou perguntar a Ceci, ela deve saber de algo. Ceci estava  conversando com Moara,. Cheguei sorrateira por trás de Moara, Ceci se assustou, Moara nem se mexeu.
         - Onde você estava? - Perguntou- me Ceci com seu jeito meigo.
         - Eu é que te pergunto isso! - Respondi com a minha ignorância habitual. - Te procurei ontem o dia todo... - Olhei de canto de olho pra Moara e disse - venha, tenho que te fazer uma pergunta...
          Saímos tentando ficar o mais distante possível. Dentro da aldeia existe um local que é estritamente para os velhos índios, e foi pra lá que levei Ceci, é um lugar perfeito pra conversar sem sermos interrompidas,  é como uma praça,  com troncos espalhados e algumas árvores cópulosas para dar bastante sombra. Sentamos!
         - O que é Zuruahá?  - Perguntei logo de cara, Ceci me encarou sem entender.
         - O que?
         - O que é Zuruahá?
         - Zuruahá é um veneno... - Disse una voz.
         Olhei pra trás e vi um índio velho sentado em um dos troncos. Seu olhar foi o que mais me marcou: um olhar secular, numa tonalidade que nunca vira antes. Um velho pajé com um semblante altivo, roupas tão antigas quanto às primeiras árvores a nascerem nesse planeta, seus cabelos longos e brancos tocavam -lhe a cintura de uma forma tão suave quanto a brisa matinal.
          - Desculpas senhor...- falei meio incomodada pela sutileza do velho índio. -Não os vimos aí antes.
         - Sou o Águia Dourada, o Kananciuê... Perdoe - me não ter me mostrado antes.
         - Nunca tinha o visto por aqui...
         - Não queria saber sobre o veneno Zuruahá? - Desconversou o velho índio.
         - Veneno? - Pensei lembrando da feição de Açuã.
         - Zuruahá é um veneno raro extraído de sapos e ervas perigosas, não se deve pruduzir ao menos que se esteja em tempos difíceis. - Kananciuê parou fixando o olhar profundo nas pequenas índias, passou de uma a outra ficando alguns segundo em Ceci, elas não perceberam, mas o velho índio espremeu um pouco os olhos olhando no interior de Ceci.
         - Não se metam com isso, as coisas logo se resolverão. Pequenas por favor foquem suas atenções para dentro de vocês, em breve precisaremos do que vocês teem para dar. - Essa última frase falou fixando em Ceci.  Natasha percebeu e a encarou, Ceci a olhou também, quando por fim voltaram ao velho índio o mesmo havia desaparecido. Fiquei sem entender... Novamente aquela pontada em meu peito me fez tremer. Alguma coisa estava prestes a acontecer...