segunda-feira, 10 de julho de 2017

28


     Eu me remexia nos braços daqueles bichos grotescos que me segurava enquanto Inuaiaxa vinha a passos lentos ao meu encontro. Eu estava acabada, sem esperança de sair dali. Não tinha forças nem para chorar, muito menos para pedir ajuda. Esperança de morte? Não. Pois sabia que estava viva, muito viva no meu corpo de carne. Inuiaxa se aproximou baixando aquele rosto seco e velho a altura dos meus olhos vermelhos de raiva. Minha respiração ofegante era como um dragão cospindo fumaça pela narina em chamas. Tentar escapar naquela situação era impossivel, por maior que fosse minha ira, ela não me tiraria dali. Inuiaxa pôs a mão direita em meu ombro enquanto tentava me acalmar com sua voz rigida e aguda. Meu ombro estranhamente ia adormecendo a medida que ele dava leves apertões. Logo eu estava adormecida, parada, drogada, ridicularmente dominada. Cai no chão de joelhos sem vida, mas não morta. Inuiaxa sorriu afastando-se de mim, pude ver por seu semblante o gostinho de vitória que exalava do seu corpo e ser. Por que eu? Me perguntava, porque!? O que eu fiz? O que meu pai o Grande Nhandeara estava trantando com aquele patife esquelético, shaman da morte. Encostei as mãos, vencidas, no chão. Aos poucos minha respiração ia normalizando.
     - O que quer de mim Inuiaxa...? - perguntei vazia totalmente por dentro. - O que eu fiz que valha tanto sacrificio? Olhei aquele velho virando para mim, seus olhos brilhavam. Eu era seu maior tesouro, algo que sua putrida experiencia de vida deposiva em mim sua esperança... mas de que?
      - Não me queira tão mal menina... - disse ele, mesmo longe, agachando como eu. - esse mal todo que me tem logo se tornará em devoção suprema. Sabias que estamos ligados por fios tão poderosos quanto o fio que liga sua alma ao seu corpo? Vou me apresentar a você, assim, quem sabe, poderá ter por mim a admiração que tenho por você.
     "Quando tinha a sua idade, um velho indio que se chamava Shamanati, recebendo ordens de seres além de nossa compreensão, me preparou para ser o pajé da tribo Caeté. E sob suas ordens passei toda minha juventude buscando ter todo seu conhecimento sobre ervas, shamanismo e elos espirituais. Eu tinha sua idade quando fui banhado na sagrada cachoeira do grande falcão branco. Lugar sagrado, demasiadamente longe, e que somente os escolhidos podiam se aventurar. Saí dali iniciado no shamanismo, sentindo e vendo tudo... tanto na terra quanto no astral superior. Eu tinha livre acesso as chaves que abriam portais para mundos inimagináveis, materializava instrumento que proporcionava avanço para nosso povo! Eu era o grande prometido, aquele que trazia do céu o conhecimento e a magia. Segui por esse caminho durante a vida toda, vi homens nascer e morrer, lutas e conquistas ganhas sobre a minha magia. Tinha eu, definitivamente, o dominio de todo aquele povo, mas aquilo, de certa forma, não me era o suficiente. Eu comecei a querer ser mais, ter mais! E mesmo sob as ordens dos velhos ancestrais que me abdicavam punindo-me quando errava, eu fui em frente. Não queria somente o dominio do nosso povo, queria o dominio de toda a planicie florestal que dominavamos. Os povos iam sendo vencidos sob nossa magia, e submentendo-se ao nosso comando. No decorrer dos anos, tinhamos mais escravos que homem nativos em nossa terra. Nosso imperio cresceu e floresceu, fazendo tremer até tribos muito longicuas a nós. Eu, Inuiaxa, o Grande Shaman conquistara o respeito e o poder de todo aquele povo que lutavam para sobreviver. Tinhamos tudo, graças aos meus conhecimentos. Um dia, fui avisado que o poder ali materializado iria subir... subir, para nós na nossa linguagem, era ser desintegrado, aniquilado por mal uso. Por maior que fosse minha ambição eu possuia contato direto com os velhos espiritos que tentavam de tudo parar com meu avanço... mas aquilo era mais forte que eu... eu queria mais! Muito Mais! Passaram-se varias luas, varios sacrificios foram feitos para os velhos Deuses para engrandecimento de meu poder abaixo do deles, e naquela madrugada, um brilho diferente brotou no ceu estelado... um vermelho escarlate projetou como um raio desintegrando todo aquele povo que veneravam a mim e aos céus. Fomos delacerados, sem chance de ao menos revidar, pelos povos das estrelas. Eu via meu povo caindo sem vida manchando de sangue aquele chão que pisara um dia como um Deus vivo entre os homens. Eu vi toda minha civilização erguida sobre monte de pedras milenares sendo desintegradas por uma força além da minha, eu via as almas desesperadas vendo seus corpos multilados no chão, sem vida, sem esperança. Ouvia os choros da morte ecoando nos destroços daquela noite dantesca. Em seguida o silencio. Tudo fora erguido por uma força magnética, teleportado ao fundo do lago que veneramos. E lá estão todos os corpos, todos os remanescentes de nosso povo, e para traz, restou nós... mortos mas vivos, agora no astral inferior, sobrevivendo do que nos resta. A energia de vocês que camiham com vida na Terra. Estou caminhando desde então, buscando uma forma de retornar ao mundo pelo acoplamento magnetico, uma forma perfeita onde poderei novamente ter um corpo para dar continuidade ao que não consegui terminar. Você me surgiu como um verdadeiro emvolucro, um recipiente para meu reencarne.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

27 Novamente a Caverna

     Não sei quanto tempo havia passado desde o momento que apaguei na aldeia.  Só me lembro do barulho irritante da gota tocando incessantemente uma pocinha de água dentro daquele lugar fétido e escuro. Estava eu mais uma vez dentro de uma caverna monstruosa, lodosa e mal iluminada. Haviam tochas presas nas paredes, fincadas no chão, espalhadas todos lugares. A cor amarelada dava um ar melancólico ao lugar. Levantei olhando a volta. Tudo estava quieto, exceto pelo barulho irritante da goteira ao meu lado. olhei praquilo e quis vomitar, era uma água lodosa e fétida. Me afastei.
     - Olá!! - gritei.
     Sentir minha voz perder vida nos corredores sem fim da caverna foi a sensação mais estranha que já tive em minha vida. Onde eu estava? Precisava acordar! Sei que estava dormindo no corpo.
     Procurei uma pedra, um pau, sei lá... algo que pudesse me causar dor a fim de despertar no meu corpo. Olhava de um lado pro outro e não via nada que pudesse me ajudar. Tirando o veio de água pútrida no chão, o resto estava vazio.
     - Merda! Preciso acordar... será que as outras índias estão aqui? - falei baixinho pra mim mesma. Tentava me localizar, era preciso agir... andar... sair dali. Comecei a andar, procurando ficar proximo a parede, nunca se sabe o que pode acontecer.
     "O olho!!!" Pensei abrindo minha mão. Arfei ao ver que estava vazia. Olhei ao redor. Nada vi. "Perdi o olho?"  Definitivamente não sabia se ficava feliz, ou se chorava. Era uma sensação indecifrável que me deixava inquieta naquele inferno.
     - OLÁÁÁÁ!!! ALGUÉM AQUI!? - Gritei novamente. E nada! - Caramba! Estou só! Lembrei-me de Kananciuê... senti um aperto fino no peito. O que realmente eu estava fazendo da minha vida? Me questionei. Tudo estava tão confuso, estranho.
     - Lá está ela! - disse de repente uma voz engrenhada. Olhei pra trás assustada. Eram duas figuras escuras na penumbra. Só via a silhueta sombria.
     - Quem são vocês!? - Perguntei apoiando um dos pés para trás. Estava pronta para correr a qualquer momento.
     - Calma princesa... somos do bem. - Um olhou pro outro e deram uma gargalhada monstruosa que me encheu de arrepios. Aquilo não podia ser um humano, não podia. A caverna chega trameu! - Não somos do bem... mas não somos do mal... quer dizer... - parou a sombra de falar. O outro deu-lhe um tapa na nuca que me deixou sobressaltada. Ambos riram novamente.
     - Me deixe sair daqui... por favor...
     - Sair? - riram novamente. - Impossível princesa... impossível.
     Comecei a chorar. Me joguei no chão aos prantos. A sombra menor se aproximou se mostrando a luz da tocha entre nós. Levantei meus olhos vermelhos e quase caí pra trás. Aquilo não era uma pessoa, não era um índio, um ser comum, era um monstro. Tinha o corpo de um homem comum, cheio de deformidades pelo corpo, olhos esbugalhados, coluna protuberante, unhas grandes e grossas. Um cheiro que me lembrou Sabuí estragado! Eu quis correr, mas algo me prendeu ali.Olhei pros meus pés e havia uma corrente trançada neles. Como isso foi parar aqui!? Tentei me livrar daquilo. Era impossível! A fera se aproximava enquanto eu urrava de medo e temor. Os dois não riam, gargalhavam de mim. Segundos depois aquelas mãos horrendas me puxaram pra cima em conduzindo para o fundo da caverna. Caminhamos por tuneis estreitos e lodosos, eu sentia ânsia de vomito só de pensar em tocar aquelas paredes úmidas e gosmentas. Um deles falou:
     - Inuiaxa já chegou?
     - Certamente que sim. Ele não se atrasaria. - respondeu o outro com desdem.
     "Eu sabia que isso era coisa daquele coisa ruim!"  Pensei quando sentir minha cabeça rodopiar. Os dois bichos me seguraram quando fui me vendo em outro lugar. Estranha aquela sensação. Era como se eu estivesse em dois lugares ao mesmo tempo. Já havia presenciado esses fenômenos enquanto acordada, mas dormindo nunca!
     Naquele momento minha visão ficou turva, como se eu tentasse ver através de um espelho d'água. Eu ouvia vozes. Eram dois homens conversando. Eu percebia algumas arvores, pois as via balançando seus galhos com força. A media que os dois monstros me sacudia, eu ia mais adentrando naquele mundo estranho. As vozes, que antes estavam longe, iam se aproximando mais e mais. Aos poucos eu pude entender o que diziam.
     - Ela é fenomenal. Bem como você havia dito!
     - Eu sei! - Respondeu o outro. - Kananciuê tem um grande amor por ela, e isso dificultou um pouco dela se aprofundar nas...
     Meu coração arfou. Aquelas vozes...
     - Vou transforma-la numa excelente recipiente para a Anhagá. - disse a voz mais velha.
     "Inuiaxa?" 
     - Não se esqueça do trato que fizemos... - lembrou a voz masculina mais jovem.
     - Claro que não! Agora preciso ir, vou ter-me com ela.
     - Não machuque minha filha... só te peço isso...
     "Pai!?"
     - Claro que não. - Respondeu o velho com a voz risonha.
    De repente a visão turva foi sumindo, sumindo, me deixando nítida no corpo na caverna.
     "Com quem meu pai tem um trato?" Pensei abismada. Eu já nem ligava dos socos e beliscões que recebia dos bichos feios que me seguravam. Só via meu pai na minha mente. O que ele fez com aquele velho maldito? Que trato foi esse que diz respeito a mim!?
     - NA-TA-SHA! - soletro uma voz que tinha um timbre que começava a odiar. Levantei minha cabeça e vi Inuiaxa a minha frente, com os braços estendidos, com um sorriso de orelha a orelha. Atras dele dois outros lacaios que não pude identificar direito. Meu coração foi a boca e voltou.




continua...























segunda-feira, 3 de julho de 2017

26 Ancestrais

 
     Já anoitecia quando caminhava ainda sem rumo na floresta. Aos poucos, os pássaros iam se recolhendo,dando lugar a os coaxares longes dos sapos ribeirinhos. Aquilo tudo era muito lindo, o som que vinha da floresta era fenomenal, impossível não se acalmar com tudo aquilo. Eu olhava pasmada o cair da penumbra na floresta, clima quente e úmido ia se transformando trazendo na brisa que soprava um acalanto para minhas indagações. Eu estava parada, em mim apenas os cabelos longos meneavam com o séfiro que soprava, minha mente vagava sem rumo. E ali, estatelada na trilha que dava para a aldeia, olhando a fogueira longe tilintando sua chama âmbar que tremeluzia com o sopro fraco do vento. Aquele era o dia que nos reuníamos para reverenciarmos nossos ancestrais, nossa tribo fazia isso sempre que um ente querido morresse, ou por morte natural, ou por ataque de animal.
     "Não sei se devo me reunir com os demais... me sinto tão estranha..."  Pensei baixando um pouco a cabeça. Naquele momento senti uma brisa passando por mim! Um acalanto estranho que me trazia a memória de minha mãe, a Danra Nahimana. Senti a garganta travar, respirei fundo, olhei pra cima com os olhos marejados e andei... andei adentrando na aldeia.
       Enquanto caminhava, meus olhos miravam meu povo se reunindo ao redor da fogueira, aquele momento fui me remetendo a toda minha infância, quando meus pais me mostravam o mundo desconhecido da floresta. Quando era jogada no rio por Açuã, quando Ceci vinha correndo me mostrar uma borboleta linda que conseguiu segurar nas mãos, quando eu maldizia das curvas de Moara... Perdi a conta das vezes que estive sentada ali toda feliz ouvindo meu pai falando dos nossos ancestrais... e hoje... nem meu próprio pai está mais perto de mim. Me sinto só... vazia... com um peso que não sei explicar em minha mente...
     Então, senti uma mão tocando-me o ombro. Sobre saltei olhando para trás. Eu conhecia bem aquelas mãos quentes por natureza e firmes como rocha. Meu pai tocava meus ombros com ternura e aquilo foi o suficiente para me desmoronar de vez! Toda aquela muralha de pedra que construí nesses últimos dias. Abracei-o chorando copiosamente, senti suas mãos amáveis me acariciando me deixando estranhamente segura, uma sensação que pareço ter esquecido do sabor.
     - Pai... - tentei dizer, mas o grande cacique me calou encostando seu dedo levemente em meus lábios. Sua feição paterna me dava toda a segurança que eu precisava.
     - Eu sei minha filha, o quanto tens sofrido para chegar onde chegou, e sei ainda da dor que terás que conduzir daqui para frente com o peso que adquirira recentemente.
     Parei para pensar enquanto secava meu rosto.
     - Está com o olho? - Perguntou-me ele.
     Assustei-me de prontidão. Fiz o gesto com a cabeça que pareceu me trazer toda a tempestade que a pouco havia se sessado.
    - Como sabe? - Perguntei. Meu pai puxou me próximo ao Moti, onde todos se reunião. Olhou gentilmente para mim e saiu reunindo-se junto aos demais caciques da tribo. Ele sabia que eu o segurava em minhas mãos! Seus olhos me diziam sem seus lábios proferir. Abri minha mão e o olhei. Ele estava ali... me encarando... sem pestanejar!
     - Natasha. - me chamou Saíra surgindo ao meu lado. Quase infartei de susto. Olhei para ela fechando de imediato a mão. - O que você estava olhando?
     - Por que? Eu olhando? Estava olhando nada não...
     - Como não. - disse ela bem baixinho, naquele momento via que meu pai já falava com todos. - Você está olhando para sua mão por quase meia hora.
     - NÃO!
     - Xiiiiiiiii! - fez ela me puxando mais pra baixo, alguns índios olharam para trás retorcendo o bico.
     - Saíra... eu só... - parei por um tempo - não é possível! Eu só olhei pro olho por um segundo...
     - Olho?
     - S-sim... quer dizer...
     - Deixa eu ver! - implorou Saíra abrindo minha mão com curiosidade. - Cade? - Parei fitando ela.
     - Aqui...
     - O que? Essa semente de Mucunã?
     - Não! Isso é um olh... - parei fitando os olhos de Saíra que me olhavam profundamente. Senti vergonha naquele momento. Fechei a mão e o apertei fazendo veias sobre a mão. - Me deixa Saira!
     - Não se preocupe Natasha... cada um está passando pela prova que necessita para evoluir nesta Terra...
     Olhei pra ela e olhei para meu Pai enquanto terminava sua oratoria. Saíra falava aos meus ouvidos enquanto eu, mentalmente vibrava para que ela fosse embora.
     - ... você um dia vai entender que isso é para o bem de todas, um dia meu pai...
     Saíra não parava de falar, e eu apertei o olho vibrando para que ela tivesse uma dor de barriga, e me deixasse em paz, em segundos eu ouvi um grunhido. Olhei pra Saíra e ela punha as mãos no ventre, sua feição não era a das melhores.
    - Saíra... você está bem? - Perguntei segurando sua mão, que estava fria e tremula.
    - Ai! Ta me dando...
     Vi Saíra se levantando as pressas sumido na escuridão enquanto eu a encarava abismada.
     - Será que...? - disse baixinho abrindo a mão encarando aquele me me fitava de forma sinistra.
     - Ele é maravilhoso, não é?
     Olhei assustada para o lado e vi Inuiaxa me encarando com um riso profundo nos lábios, seus olhos estreitos espremidos me encarava com ambição. Dei um grito caindo para trás. Aquela foi a ultima cena que me lembro daquele dia terrivel.




Continua...




























sábado, 24 de junho de 2017

25 Eu Sou Seu Mestre

     Estava totalmente fora de mim. Havia em minha mente um turbilhão de fortes emoções tomando conta de minhas ações. Eu, naquele momento, não sabia o que fazer, onde ir, com quem falar... nem conseguia gritar! Sentia fome, frio, medo, angustia, raiva, tudo o que não presta!
     As horas iam passando, eu ainda ali, parada, sem reação para nada... meus ombros pesavam, minhas costas doíam...
     - O que eu vou fazer? pensei enquanto batia levemente o tronco de uma arvore. Meus olhos miravam o céu, mas era como se eu não o visse. Tudo aquilo já não tinha sentido algum pra mim. Onde estava Kananciuê que não vinha me reconfortar com suas palavras gentis? Eu me sentia uma fera incontrolável...
     - Eu sei o que você sente... - disse Inuiaxa logo atrás de mim. Virei resmungando sem paciência.
     - O que você quer de mim seu velho nojento!?
     - Não sou eu que preciso de você agora, e sim você de mim. - respondeu com um certo ar irônico. Eu juro que ouvi um risinho sínico em algum lugar próximo a mim.
     - Vá embora... não quero nada com você!
     - Quer sim... - disse - e tem raiva de si mesmo por querer...
     - VÁ EMBORA!
     - Não, eu não vou menina... e não altere mais o tom comigo! - disse ele espremendo levemente os olhos.
     Naquele momento senti um peso em meu estomago, como se tudo que ali houvesse revirasse. Agachei sentindo muita dor. Tentei gritar, chamar alguém... ele me alertou.
     - Todos já acham que você é uma Padalá... se chegar alguém aqui e te ver falando com um nada, a provas terão se tornado reais.
     - Eles vão te ver seu miserável!!!
     - E você acha que podem realmente me ver?
     - AAAARGGGGHHHH! - Urrei de dor.
     - Volte onde jogou o olho!
     - Não! AAAARRGGGGHHHH!
     - Vou te pedir mais uma vez, não me faça repetir menina insolente! Vá buscar o olho!!
     - Não... eu NÃO VOU!
     Naquele momento senti tudo rodopiar, minhas vistas escureceram, não senti mais meu corpo. Ouvi risadas surgindo de todos os lados, as arvores deram lugar a paredes sombrias sombreadas por chamas em tochas rusticas fincadas em vários cantos da caverna. Ergui meu olhar a frente e vi Inuiaxa parado me encarando. Ele tinha em suas mãos um rosário escuro na qual passava seus dedos finos e frios. Senti que seus lábios pronunciavam palavras que eu não conseguia ouvir. De repente o desconforto voltou. Senti um punhal em meu estomago revirando e estraçalhando tudo. Cai novamente no chão urrando de dor. O velho índio me encarava sem piedade a medida que me castigava com sua magia imunda! No meio da caverna reverberava gritos e risadas esganiçadas que rasgavam meus ouvidos. Estava presa num mundo que não conhecia. Um mundo pesado, das trevas na qual o velho índio certamente comandava.
     - Eu sou seu mestre agora! Deve-me respeito menina... - disse ele deixando sua magia de lado. Senti um alivio imediato. Caí no chão esgotada, sem forças. Meus olhos o encaravam trêmulos de medo e pavor, minhas pernas vibravam sem forças para fugir . - Nunca mais poderá fugir do envolucro que te envolvi. Você será muito útil para nós!
     - Me deixe sair... por favor... - disse desfalecida.
     - Você agora me pertence! e a mim deve respeito.
     Fiquei sem reação. Tentei chorar, meus lábios tremiam de frio e medo.
     - Volte, e leve contigo o olho que te entreguei! Ele é o contato direto comigo, e através dele te prepararei, te ensinando sobre sua força e poder.
     Tentei dizer algo, mas o velho levantou o rosário me fazendo apagar totalmente. Senti novamente tudo girar. As risadas pareciam me circundar, rasgando minha pele a medida que tudo girava. Era uma dor que não era física, era uma angustia que me sugava até a ultima gota de energia.
     Despertei no corpo. Olhei desesperada para todas as direções. Não vi ninguém! O velho não estava mais ali. Forcei para levantar, mas senti tanta dor que gritei caindo no chão novamente. Debrucei sobre mim procurando me abraçar, apertando-me o máximo, tentando me dar forças em meio a tudo que estava acontecendo. Olhei para minhas mãos, elas estavam magras, frias... meus dedos tremiam, minhas unhas ranhentas estavam sujas de terra. Aquela não era eu! Eu não era esse monstro... A transformação era para ser positiva em minha vida, mas desde do momento que tudo começou eu só consegui atrair revoltas e coisas ruins. Meus olhos choravam, meus lábios derramavam saliva densa de desespero e medo. Minha respiração acelerada com o choro me deixa ainda mais nesse estado deplorável de ser. Fiquei ali, abraçada a mim mesma não sei por quanto tempo. Meu choro deplorável não me aliviava, ao contrario, me afundada com tantos sentimentos impróprios contra os princípios que minha mãe, a Danra Nahimana tanto presava. Eu estava definitivamente destruída. Abri meus olhos tentado enxergar a realidade do mundo, e entre vários galhos e pedra, enxerguei um seixo esbranquiçado... este se mexeu virando-se para mim. Aquele não era uma pedra, era o Olho!


continua...
   
 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Página 23 Me Encontrando

     Tirei a última raiz que saía a minha perna esquerda. Me senti de certa forma mais leve. Por um segundo encarei o entulho de galhos que se formaram ao meu lado de tudo que tirei e pensei como aquilo era possível? Encolhi minhas pernas passando as mãos em minha pele, ela estava lisa como se nada tivesse acontecido, como pode?! Levantei-me, dei alguns passos a frente e parei. Agora que estava sozinha eu poderia ver melhor a tal lagrima de Xavú. Coloquei a mão na minha bolsinha e tirei a pequena pedra. Vou confessar ... Me senti estranha. Que pedra linda! Pensei.
     Peguei-a com os dois dedos e a foquei com os olhos. Havia alguns símbolos estranhos impressos nela... O que será que estava escrito? Pensei. Elevei-a a altura dos olhos e Mirei pro sol, naquela posição eu pude notar uma parte leitosa dentro da pedra, era ela que dava a cor âmbar aquela preciosidade.
     - Que estranho! - disse bem baixinho pra mim mesma enquanto a olhava rente aos olhos. - mas o que quer dizer esses simbolos?
     Notei então que algo dentro da pedra se mexeu.
     - ??? - Afastei a pedra um pouco, depois voltei a perto dos olhos.
     Senti um calafrio subindo pelas minhas costas, os símbolos sumiam lentamente enquanto se desfaziam dentro do liguido mentoso dentro da pedra.
     - Nossa... - disse quase inaudível - parece que está derrentendo ou...
     A parte escura que formava os símbolos derreteram se encontrando dentro da pedra, olhei aquilo pasmada... O líquido escuro formou um globo dentro da pedra.
     - ...parece um... !!!!!!
       Joguei a pedra no chão abismada, minhas pernas começaram a tremer e minhas mãos gelaram na hora. Era como se a pedra se tornasse um olho!!!
     Dei alguns passos para trás e aquele olho parecia me acompanhar, eu andava e ele me olhava fixamente.
     - O que é isso!? - me perguntei pondo as mãos frias na boca - pare de me olhar... PARE!!! - urrei.
     Juntei coragem e chutei longe aquele olho acastanhado. Minha respiração ofegante me deixou meio zonza, então uma mão me segurou no ombro.
     - AHHHHHHH!!!!! - gritei estérica. A pessoa atrás de mim recuou sem entender.
     - Natasha? O que foi? - disse a voz que eu conhecia bem.
     Me virei com a cara estupefada. Provavelmente eu teria corrido da minha própria feição.
     - Ah Saíra!!! - desabafei aliviada - você quer me matar é?
     - Te matar Natasha? - disse ela meio irônica e sem entender. - O que você estava fazendo aqui sozinha? Está todo mundo preocupado com você. Os homens da tribo estão te procurando a sete dias...
     - SETE DIAS?! - briguei com ela - QUE SETE DIAS? Não tem nenhuma hora que estou aqui...
     - Natasha... Já se passaram sete dias desde o dia em que você saiu do desdobramento do nada...
     - Para Saíra... - disse empurrando-a -  sete dias... Até parece...
     - Natasha é serio!
     - Me deixa saíra, me deixa!
     Entrei na mata tentando achar a trilha estreita e apagada que levava a caverna onde vi Moara. Caminhei por uns dez minutos quando ouvi murmúrios atrás de mim.
     - É ela, é ela...
     - NATASHAAAA!!!! - me chamou uma das vozes.
     Girei pra trás e vi Açuã e Jupiara ansiosos atrás de mim.
     Torci o bico e me virei contra eles.
     - Natasha, estão todos preocupados com você... Onde você estava?
    - Como onde eu estava? ESTAVA AQUI O TEMPO TODO!!!
    - Pensamos que tinha sido morta por uma onça - disse Açuã aliviado.
     - Que onça o que! - esbaforei - se eu visse uma onça eu era que iria comer ela!!
     - Natasha, a Danra, sua mãe...
     - O que tem minha mãe? Está preocupada? É só falar que já me acharam... - disse e sai tentando ficar só.
     Açuã e Jupiara se olharam meio pesaroso.
     - Não Natahsa... Ela está morta...
....continua.
M. L
   

terça-feira, 9 de junho de 2015

24 Uma Lagrima, um Adeus. O início da transformação.

     Corri pra aldeia de uma forma que minha respiração ofegante se misturava ao farfalhar das folhas secas dos arbustos que eu saltava. Minha mãe, a Danra Nahimana não poderia ter morrido!! Não poderia!!! Aquilo foi uma mentira absurda! Estavam mentindo... MENTINDO!!!
     Cheguei na aldeia e todos me encaravam com espanto. Eu não tinha tempo de olhar aquelas caras horrendas que me embrulhavam o estomago, eu tinha que ver minha mãe... MINHA MÃE!!!!
     - Natasha! - me chamou uma voz. Olhei pra trás e vi Saíra parada entre dois caciques.
     - O que foi Saíra? Estou indo falar com minha mãe.
     Minha voz embargou, saiu vacilante. Algo me dizia que eles não estavam mentindo. Os olhos de Saíra me diziam isso com clareza.
     - Natash...
     - Fica calada Saíra, não fale nada! - interrompi. - Eu vou na maloca, e vou ter com minha mãe - meus olhos se enchiam de lágrimas sem que eu me tocasse. - se você ou alguem nessa maldita tribo - parei, minha voz embargou - me impedir ou vier falar algo, eu... E-eu...
     Comecei a perder as forças, minhas pernas bambearam, ajoelhei vencida e em lágrimas copiosas. Minhas palavras não saiam mais, por mais que eu tentasse, a dor era forte de mais e minha garganta afungentada se espremia a cada soluço de dor. Eu olhava para Saíra que me encarava com ar penoso enquanto me expremia agonizante no chão frio.
     - Minha mãe Saíra!!! - urrei aos céus diante da dor profunda. - Minha MÃE!!!!!
     Saíra me assistia espremendo suas mãozinhas junto ao seu peito. Ela se compadecia de minha dor, seu semblante firme e meigo tentava me encorajar dando-me forças.
     - Ô Natasha... - disse Saíra vencida pela minha dor, abaixou-se e me abraçou. - Sua mãe f...
     - CALA A BOCA! - gritei empurrando-a. Sentia tanto ódio que minha pele parecia fervilhar. Meus olhos espremidos e vermelhos queimava a todos que tentavam se compadecer. Joguei saíra no chão e corri desenfreada até a nossa maloca.
     Cheguei. Olhei todos os lados. Estava vazia. Aquele foi o pior vazio, o pior silencio. Era a morte falando cimigo... Desmoronei ajoelhando novamente no chão aos prantos. Tapei meu rosto com minhas mãos trêmulas tentando sessar as lagrimas descontroladas. A dor em meu peito logo foi tornando áspera, sangrenta e odiosa. Esmurrei o chão, uma, duas, três, quatro vezes e a medida que esmurrava desconsoladamente eu xingava tudo e a todos.  O som seco das batidas ecoavam por aquelas folhas secas em um eco fúnebre. O sangue que derramava em minhas mãos regava aquele chão que certamente minha amada mãe descansava. Mas onde ela estava? Onde?
     Senti uma mão fria tocando meu ombro. Era uma mão profunda de muitas experiência ocultas. Minha ira anuviou-se. Senti medo. Abri por um momento os cabelos de meu rosto ignorando por um momento a dor das chagas em minhas mãos. Era Ínuaixa. Ele estava ali, novamente, ao meu lado. Senti uma estranha sensação ao vê-lo.
     - Vo-você?
     - Xiiiiii - fez ele com os dedos magros tapando meus lábios umedecidos. - fique quieta menina e ouça o que tenho a te dizer. - me encarou nos olhos ignorando totalmente a minha dor. - não deixe que te dominem... Lute contra tudo. Eles te tiraram a sua mãe, e eles irão... - Ínuaixa olhou para algo que vinha atras de mim, notei por seus olhos que ele via algo que não estava ali conosco no mundo fisico, sua fisionomia mudou muito rápido. - escute menina, eles querem fazer com você o que fizeram com sua mãe, revolte-se! Não deixe que te dominem... Lute! Use o olho que te dei, ele te mostrará tudo, tudo!
     Eu olhava fixamente a expressão apressada de Ínuaixa, ele dizia coisas que não batia com o que eu havia sentido dias antes. Pus as mãos ao peito procurando sentir o olho em minha bolsa, aquele artefato me pesava e me intigava como nunca. Esqueci por um segundo de minha mãe, olhei rapidamente para trás de mim e não vi nada, voltei à Ínuaixa e ele havia sumido. Senti um calafrio cortando minhas costas como navalhas negras e frias subindo ate minha nuca. Meu coração acelerou descompassadamente.
     - Ínuaixa.., - falei pro vazio...
     Levantei-me sem entender. Os últimos suspiros da dor de segundos antes me permeava o peito em suspiros profundos. Sequei os olhos e joguei meus cabelos desgrenhados para trás. Tinha que sair dali. Tinha que saber o que estava acontecendo. Olhei novamente para trás e vi Yakekan parado bem ao fundo da maloca escura, ele me encarava pesaroso. Aquele olhar milenar não conseguiu tirar a ira que crescia descontroladamente dentro de mim. Saí de lá de dentro ignorando-o por completo, caminhei a passos firmes em um único destino. Em minha bolsa sentia o olho de Xavú ardendo em chamas.


....continua.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Pagina 22 A Lágrima de Xavú

     " O que é isso que está tomando conta do meu corpo!?" gritava eu em meus pensamentos. Eu sentia como se não dominasse mais meus braços nem minhas pernas. Sentia apenas uma vibração pulsando dentro de mim... Algo ressoando em todas as minhas veias e artérias. Eu gritava, chingava e minha voz não me respondia. Fui obrigada a ficar inerte no ar até sessar aquela sensação horrível.
     Lá em baixo eu ouvia com clareza e nitidez a risada do velho índio Ínuaixa. Ele não ria, gargalhava! Parecia ter conseguido algo que tivesse lutado a muito tempo. Aos poucos toda aquela sensação ia parando, logo eu pude sentir meus pés tocando o chão frio da caverna. Eu suava muito e me sentia meio enjoada. Agachei um pouco e olhei de relance para baixo.
     - O você fez comigo?! - perguntei - O QUE VOCÊ FEZ COMIGO?!!
     - Não é hora para explicações!! Fique quieta menina... - disse ele com aquele olhar de triunfo - ou seu corpo não irá suportar...
     - Suportar o que? O QUE?!
     - Fique calada Natasha!!! - disse ele meio preocupado querendo adiantar um passo.
     - Calada? CALADA??? - urrei - QUEM É VOCÊ PARA ME MAND...
     Senti uma fisgada forte no meu abdômen. Abaixei um pouco mais quase caido no chão.
     - O que você fez comigo? Ahhhhhh - gritei de dor.
     - Fique quieta menina !!! - disse ele novamente subindo um degrau na escada.
     Urrei alto senti uma força descomunal saido de mim. Ínuaixa deu um passo pra trás, seu olhar era de tensão e entusiasmo.
     - Seu maldito!!!! - disse olhando nos olhos dele. Ele esbaforiu uma reação absorta. Voei sobre ele com uma fúria incontrolável, ele ergueu uma das mãos antes de eu o tocar e tudo se clareou. Perdi a consciência.

                                                 ...

     - Natasha... Natasha!!
     Eu sentia como se estivesse caindo de um abismo, mas na verdade estava voltando pro corpo. Era como se estivesse em um redemoinho, girando e caindo desenfreada.
     - ahhhh!! - gritei assim que abri os olhos. - O QUE ESTÁ ACONTRCENDO? O QUE ESTÁ ACONTECENDO??? - perguntei me debatendo enquanto descortinava os olhos esbugalhados e vermelhos.
     - Calma, calma! - disse uma voz bem a minha frente.
     Senti uma água esguichando no meu rosto. Assutei, pois minha visão estava ainda turva. Olhei pra cima e vi Nhandeara meio plasmado com uma cuia vazia  na mão.
     - como você esta?
     - Como estou? - perguntei ironicamente - pareço bem? - cocei os olhos tentando realinha-los.
     Nhandeara me olhava com certa admiração e excitação. Sua respiração estava levemente ofegante. Eu não estava entendendo nada, pois houve alguns segundos de silêncio que pareceram para mim uma eternidade. Aos poucos eu pude perceber melhor as coisas ao meu redor.
     - O que o senhor está fazendo aqui? - perguntei tentando me levantar, mas algo me segurou no chão.
     - Estava esperando você voltar do seu desdobramento.
     - Voltar? Então o senhor sabia qu... - forcei meu corpo novamente para me levantar, mas algo prendia minhas pernas no chão. - Mas o que está me segurando no chão!? - já estava ficando sem paciencia, e a presença do Cacique Nhandeara me deixava meio sem graça pra dizer umas boas palavras! Ele parecia esconder algo de mim e aquela sensação estava alem de constrangedora muito estranha.
     - Natasha, minha pequena, hoje você deu um grande salto na sua vida energética nesse mundo - dizia ele pacifico e melancólico - a partir de hoje você não mais ser...
     - Senhor... Desculpa, mas eu quero me levantar - cortei ele enquanto forçava meus pés. - tem alguma coisa me segurando? - perguntei tentando ver o que era, Nhandeara que estava na minha frente se levantou meio titubeante. Olhei pros meus pés e dei um grito!
     - O QUE É ISSO????
     Meus pés e pernas estavam todos cobertos por raizes, folhas, galhos... Mas não parecia que alguem tinha os posto ali, era como se saíssem de mim! Como se meu corpo da cintura pra baixo tivesse se transformado em uma árvore estranha e contorcida.
     Gritei desesperada enquanto arrancava da minha pele toda aquelas coisas. Nhandeara me olhava cobiçoso, como se não pudesse acreditar. Seus olhos brilhavam, como se a sua frente houvesse uma pedra preciosa a muito cobiçada. Ele mordia levemente seus lábios tamanho sua excitação.
     - Senhor! Por favor, me ajude!!! - implorei enquanto arrancava das minhas pernas os punhados de raízes e galhos.
     - Não posso Natasha, somente você é capaz de tirar sem te causar dor...
     - como assim? - arranquei mais um outro punhado e arremessei pro lado.
     - É sua conexão com a terra filha, você não só deu um passo nesse desdobramento, você foi muito mais além. É só olhar...
     - Senhor... - tirei os últimos galhos da perna direita - o que vão falar de mim? - perguntei imaginando a cara de Ceci e Saíra. - estou parecendo um bicho... Uma árvore... Ai meu Deus do céu!!!
     - Ninguém poderá saber filha, - ele se abaixou a meu nivel, pegou minha mão e apertou forte ao peito - o que você fez ou viu hoje, ninguém poderá saber Natasha, ninguém!
     - COMO NÃO?!!!  - gritei sem perceber, parei, engoli a seco e continuei recomposta - estou parecendo uma arvore!! Vou contar sim!!!
     - Não, você não vai!
     Nhandeara me encarou com aqueles olhos negros, frios e profundos, sentir o vazio em seu coração, aquilo me deixou confusa e sem chão. Nhandeara é um cacique influente na nossa tribo, está sempre com Kananciuê e Yakekan. Aquilo me deu muito medo.
     - Esculte filha, - ele pegou algo de dentro de uma bolsinha de couro de javali que estava presa em seu peito e Me deu. - esta é a lagrima de Xavú, guarde-a contigo, e no momento certo saberá usa-la. Ela vai te dar as resposta que precisar. Eu não tenho a permissão de te explicar nada aqui, desse jeito como estamos. Mas por favor, guarde contigo essa lágrima, ela será muito importante na sua nova caminhada.
     Olhei aquilo estupefada, sem reação. Algo me induzia a pegar, e eu sentia que não era algo bom. Peguei aquela pedrinha na mão e a segurei. Era pequena, parecia feito de seiva de âmbar. Olhei praquilo, tão pequena e tão misteriosa e guardei em minha bolsinha. Não sabia o que responder, não sabia se deveria agradecer... Preferi ficar no silencio.
     - Não precisa me agradecer filha... - disse ele se levantando, - no tempo certo me procurará, e lembre-se, - virou-se para mim inerte no chão , não conte a ninguém, a ninguém!
     Nhandeara sumiu na mata tão misterioso quanto apareceu. O que era aquela pedra? Por que eu não podia falar para ninguém? Eu pensava enquanto arrancava os tufos de folhas e galhos presos nas minhas pernas com toda pressa e força que eu pudesse ter.


....continua.



M. L.