sábado, 24 de junho de 2017

25 Eu Sou Seu Mestre

     Estava totalmente fora de mim. Havia em minha mente um turbilhão de fortes emoções tomando conta de minhas ações. Eu, naquele momento, não sabia o que fazer, onde ir, com quem falar... nem conseguia gritar! Sentia fome, frio, medo, angustia, raiva, tudo o que não presta!
     As horas iam passando, eu ainda ali, parada, sem reação para nada... meus ombros pesavam, minhas costas doíam...
     - O que eu vou fazer? pensei enquanto batia levemente o tronco de uma arvore. Meus olhos miravam o céu, mas era como se eu não o visse. Tudo aquilo já não tinha sentido algum pra mim. Onde estava Kananciuê que não vinha me reconfortar com suas palavras gentis? Eu me sentia uma fera incontrolável...
     - Eu sei o que você sente... - disse Inuiaxa logo atrás de mim. Virei resmungando sem paciência.
     - O que você quer de mim seu velho nojento!?
     - Não sou eu que preciso de você agora, e sim você de mim. - respondeu com um certo ar irônico. Eu juro que ouvi um risinho sínico em algum lugar próximo a mim.
     - Vá embora... não quero nada com você!
     - Quer sim... - disse - e tem raiva de si mesmo por querer...
     - VÁ EMBORA!
     - Não, eu não vou menina... e não altere mais o tom comigo! - disse ele espremendo levemente os olhos.
     Naquele momento senti um peso em meu estomago, como se tudo que ali houvesse revirasse. Agachei sentindo muita dor. Tentei gritar, chamar alguém... ele me alertou.
     - Todos já acham que você é uma Padalá... se chegar alguém aqui e te ver falando com um nada, a provas terão se tornado reais.
     - Eles vão te ver seu miserável!!!
     - E você acha que podem realmente me ver?
     - AAAARGGGGHHHH! - Urrei de dor.
     - Volte onde jogou o olho!
     - Não! AAAARRGGGGHHHH!
     - Vou te pedir mais uma vez, não me faça repetir menina insolente! Vá buscar o olho!!
     - Não... eu NÃO VOU!
     Naquele momento senti tudo rodopiar, minhas vistas escureceram, não senti mais meu corpo. Ouvi risadas surgindo de todos os lados, as arvores deram lugar a paredes sombrias sombreadas por chamas em tochas rusticas fincadas em vários cantos da caverna. Ergui meu olhar a frente e vi Inuiaxa parado me encarando. Ele tinha em suas mãos um rosário escuro na qual passava seus dedos finos e frios. Senti que seus lábios pronunciavam palavras que eu não conseguia ouvir. De repente o desconforto voltou. Senti um punhal em meu estomago revirando e estraçalhando tudo. Cai novamente no chão urrando de dor. O velho índio me encarava sem piedade a medida que me castigava com sua magia imunda! No meio da caverna reverberava gritos e risadas esganiçadas que rasgavam meus ouvidos. Estava presa num mundo que não conhecia. Um mundo pesado, das trevas na qual o velho índio certamente comandava.
     - Eu sou seu mestre agora! Deve-me respeito menina... - disse ele deixando sua magia de lado. Senti um alivio imediato. Caí no chão esgotada, sem forças. Meus olhos o encaravam trêmulos de medo e pavor, minhas pernas vibravam sem forças para fugir . - Nunca mais poderá fugir do envolucro que te envolvi. Você será muito útil para nós!
     - Me deixe sair... por favor... - disse desfalecida.
     - Você agora me pertence! e a mim deve respeito.
     Fiquei sem reação. Tentei chorar, meus lábios tremiam de frio e medo.
     - Volte, e leve contigo o olho que te entreguei! Ele é o contato direto comigo, e através dele te prepararei, te ensinando sobre sua força e poder.
     Tentei dizer algo, mas o velho levantou o rosário me fazendo apagar totalmente. Senti novamente tudo girar. As risadas pareciam me circundar, rasgando minha pele a medida que tudo girava. Era uma dor que não era física, era uma angustia que me sugava até a ultima gota de energia.
     Despertei no corpo. Olhei desesperada para todas as direções. Não vi ninguém! O velho não estava mais ali. Forcei para levantar, mas senti tanta dor que gritei caindo no chão novamente. Debrucei sobre mim procurando me abraçar, apertando-me o máximo, tentando me dar forças em meio a tudo que estava acontecendo. Olhei para minhas mãos, elas estavam magras, frias... meus dedos tremiam, minhas unhas ranhentas estavam sujas de terra. Aquela não era eu! Eu não era esse monstro... A transformação era para ser positiva em minha vida, mas desde do momento que tudo começou eu só consegui atrair revoltas e coisas ruins. Meus olhos choravam, meus lábios derramavam saliva densa de desespero e medo. Minha respiração acelerada com o choro me deixa ainda mais nesse estado deplorável de ser. Fiquei ali, abraçada a mim mesma não sei por quanto tempo. Meu choro deplorável não me aliviava, ao contrario, me afundada com tantos sentimentos impróprios contra os princípios que minha mãe, a Danra Nahimana tanto presava. Eu estava definitivamente destruída. Abri meus olhos tentado enxergar a realidade do mundo, e entre vários galhos e pedra, enxerguei um seixo esbranquiçado... este se mexeu virando-se para mim. Aquele não era uma pedra, era o Olho!


continua...
   
 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Página 23 Me Encontrando

     Tirei a última raiz que saía a minha perna esquerda. Me senti de certa forma mais leve. Por um segundo encarei o entulho de galhos que se formaram ao meu lado de tudo que tirei e pensei como aquilo era possível? Encolhi minhas pernas passando as mãos em minha pele, ela estava lisa como se nada tivesse acontecido, como pode?! Levantei-me, dei alguns passos a frente e parei. Agora que estava sozinha eu poderia ver melhor a tal lagrima de Xavú. Coloquei a mão na minha bolsinha e tirei a pequena pedra. Vou confessar ... Me senti estranha. Que pedra linda! Pensei.
     Peguei-a com os dois dedos e a foquei com os olhos. Havia alguns símbolos estranhos impressos nela... O que será que estava escrito? Pensei. Elevei-a a altura dos olhos e Mirei pro sol, naquela posição eu pude notar uma parte leitosa dentro da pedra, era ela que dava a cor âmbar aquela preciosidade.
     - Que estranho! - disse bem baixinho pra mim mesma enquanto a olhava rente aos olhos. - mas o que quer dizer esses simbolos?
     Notei então que algo dentro da pedra se mexeu.
     - ??? - Afastei a pedra um pouco, depois voltei a perto dos olhos.
     Senti um calafrio subindo pelas minhas costas, os símbolos sumiam lentamente enquanto se desfaziam dentro do liguido mentoso dentro da pedra.
     - Nossa... - disse quase inaudível - parece que está derrentendo ou...
     A parte escura que formava os símbolos derreteram se encontrando dentro da pedra, olhei aquilo pasmada... O líquido escuro formou um globo dentro da pedra.
     - ...parece um... !!!!!!
       Joguei a pedra no chão abismada, minhas pernas começaram a tremer e minhas mãos gelaram na hora. Era como se a pedra se tornasse um olho!!!
     Dei alguns passos para trás e aquele olho parecia me acompanhar, eu andava e ele me olhava fixamente.
     - O que é isso!? - me perguntei pondo as mãos frias na boca - pare de me olhar... PARE!!! - urrei.
     Juntei coragem e chutei longe aquele olho acastanhado. Minha respiração ofegante me deixou meio zonza, então uma mão me segurou no ombro.
     - AHHHHHHH!!!!! - gritei estérica. A pessoa atrás de mim recuou sem entender.
     - Natasha? O que foi? - disse a voz que eu conhecia bem.
     Me virei com a cara estupefada. Provavelmente eu teria corrido da minha própria feição.
     - Ah Saíra!!! - desabafei aliviada - você quer me matar é?
     - Te matar Natasha? - disse ela meio irônica e sem entender. - O que você estava fazendo aqui sozinha? Está todo mundo preocupado com você. Os homens da tribo estão te procurando a sete dias...
     - SETE DIAS?! - briguei com ela - QUE SETE DIAS? Não tem nenhuma hora que estou aqui...
     - Natasha... Já se passaram sete dias desde o dia em que você saiu do desdobramento do nada...
     - Para Saíra... - disse empurrando-a -  sete dias... Até parece...
     - Natasha é serio!
     - Me deixa saíra, me deixa!
     Entrei na mata tentando achar a trilha estreita e apagada que levava a caverna onde vi Moara. Caminhei por uns dez minutos quando ouvi murmúrios atrás de mim.
     - É ela, é ela...
     - NATASHAAAA!!!! - me chamou uma das vozes.
     Girei pra trás e vi Açuã e Jupiara ansiosos atrás de mim.
     Torci o bico e me virei contra eles.
     - Natasha, estão todos preocupados com você... Onde você estava?
    - Como onde eu estava? ESTAVA AQUI O TEMPO TODO!!!
    - Pensamos que tinha sido morta por uma onça - disse Açuã aliviado.
     - Que onça o que! - esbaforei - se eu visse uma onça eu era que iria comer ela!!
     - Natasha, a Danra, sua mãe...
     - O que tem minha mãe? Está preocupada? É só falar que já me acharam... - disse e sai tentando ficar só.
     Açuã e Jupiara se olharam meio pesaroso.
     - Não Natahsa... Ela está morta...
....continua.
M. L
   

terça-feira, 9 de junho de 2015

24 Uma Lagrima, um Adeus. O início da transformação.

     Corri pra aldeia de uma forma que minha respiração ofegante se misturava ao farfalhar das folhas secas dos arbustos que eu saltava. Minha mãe, a Danra Nahimana não poderia ter morrido!! Não poderia!!! Aquilo foi uma mentira absurda! Estavam mentindo... MENTINDO!!!
     Cheguei na aldeia e todos me encaravam com espanto. Eu não tinha tempo de olhar aquelas caras horrendas que me embrulhavam o estomago, eu tinha que ver minha mãe... MINHA MÃE!!!!
     - Natasha! - me chamou uma voz. Olhei pra trás e vi Saíra parada entre dois caciques.
     - O que foi Saíra? Estou indo falar com minha mãe.
     Minha voz embargou, saiu vacilante. Algo me dizia que eles não estavam mentindo. Os olhos de Saíra me diziam isso com clareza.
     - Natash...
     - Fica calada Saíra, não fale nada! - interrompi. - Eu vou na maloca, e vou ter com minha mãe - meus olhos se enchiam de lágrimas sem que eu me tocasse. - se você ou alguem nessa maldita tribo - parei, minha voz embargou - me impedir ou vier falar algo, eu... E-eu...
     Comecei a perder as forças, minhas pernas bambearam, ajoelhei vencida e em lágrimas copiosas. Minhas palavras não saiam mais, por mais que eu tentasse, a dor era forte de mais e minha garganta afungentada se espremia a cada soluço de dor. Eu olhava para Saíra que me encarava com ar penoso enquanto me expremia agonizante no chão frio.
     - Minha mãe Saíra!!! - urrei aos céus diante da dor profunda. - Minha MÃE!!!!!
     Saíra me assistia espremendo suas mãozinhas junto ao seu peito. Ela se compadecia de minha dor, seu semblante firme e meigo tentava me encorajar dando-me forças.
     - Ô Natasha... - disse Saíra vencida pela minha dor, abaixou-se e me abraçou. - Sua mãe f...
     - CALA A BOCA! - gritei empurrando-a. Sentia tanto ódio que minha pele parecia fervilhar. Meus olhos espremidos e vermelhos queimava a todos que tentavam se compadecer. Joguei saíra no chão e corri desenfreada até a nossa maloca.
     Cheguei. Olhei todos os lados. Estava vazia. Aquele foi o pior vazio, o pior silencio. Era a morte falando cimigo... Desmoronei ajoelhando novamente no chão aos prantos. Tapei meu rosto com minhas mãos trêmulas tentando sessar as lagrimas descontroladas. A dor em meu peito logo foi tornando áspera, sangrenta e odiosa. Esmurrei o chão, uma, duas, três, quatro vezes e a medida que esmurrava desconsoladamente eu xingava tudo e a todos.  O som seco das batidas ecoavam por aquelas folhas secas em um eco fúnebre. O sangue que derramava em minhas mãos regava aquele chão que certamente minha amada mãe descansava. Mas onde ela estava? Onde?
     Senti uma mão fria tocando meu ombro. Era uma mão profunda de muitas experiência ocultas. Minha ira anuviou-se. Senti medo. Abri por um momento os cabelos de meu rosto ignorando por um momento a dor das chagas em minhas mãos. Era Ínuaixa. Ele estava ali, novamente, ao meu lado. Senti uma estranha sensação ao vê-lo.
     - Vo-você?
     - Xiiiiii - fez ele com os dedos magros tapando meus lábios umedecidos. - fique quieta menina e ouça o que tenho a te dizer. - me encarou nos olhos ignorando totalmente a minha dor. - não deixe que te dominem... Lute contra tudo. Eles te tiraram a sua mãe, e eles irão... - Ínuaixa olhou para algo que vinha atras de mim, notei por seus olhos que ele via algo que não estava ali conosco no mundo fisico, sua fisionomia mudou muito rápido. - escute menina, eles querem fazer com você o que fizeram com sua mãe, revolte-se! Não deixe que te dominem... Lute! Use o olho que te dei, ele te mostrará tudo, tudo!
     Eu olhava fixamente a expressão apressada de Ínuaixa, ele dizia coisas que não batia com o que eu havia sentido dias antes. Pus as mãos ao peito procurando sentir o olho em minha bolsa, aquele artefato me pesava e me intigava como nunca. Esqueci por um segundo de minha mãe, olhei rapidamente para trás de mim e não vi nada, voltei à Ínuaixa e ele havia sumido. Senti um calafrio cortando minhas costas como navalhas negras e frias subindo ate minha nuca. Meu coração acelerou descompassadamente.
     - Ínuaixa.., - falei pro vazio...
     Levantei-me sem entender. Os últimos suspiros da dor de segundos antes me permeava o peito em suspiros profundos. Sequei os olhos e joguei meus cabelos desgrenhados para trás. Tinha que sair dali. Tinha que saber o que estava acontecendo. Olhei novamente para trás e vi Yakekan parado bem ao fundo da maloca escura, ele me encarava pesaroso. Aquele olhar milenar não conseguiu tirar a ira que crescia descontroladamente dentro de mim. Saí de lá de dentro ignorando-o por completo, caminhei a passos firmes em um único destino. Em minha bolsa sentia o olho de Xavú ardendo em chamas.


....continua.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Pagina 22 A Lágrima de Xavú

     " O que é isso que está tomando conta do meu corpo!?" gritava eu em meus pensamentos. Eu sentia como se não dominasse mais meus braços nem minhas pernas. Sentia apenas uma vibração pulsando dentro de mim... Algo ressoando em todas as minhas veias e artérias. Eu gritava, chingava e minha voz não me respondia. Fui obrigada a ficar inerte no ar até sessar aquela sensação horrível.
     Lá em baixo eu ouvia com clareza e nitidez a risada do velho índio Ínuaixa. Ele não ria, gargalhava! Parecia ter conseguido algo que tivesse lutado a muito tempo. Aos poucos toda aquela sensação ia parando, logo eu pude sentir meus pés tocando o chão frio da caverna. Eu suava muito e me sentia meio enjoada. Agachei um pouco e olhei de relance para baixo.
     - O você fez comigo?! - perguntei - O QUE VOCÊ FEZ COMIGO?!!
     - Não é hora para explicações!! Fique quieta menina... - disse ele com aquele olhar de triunfo - ou seu corpo não irá suportar...
     - Suportar o que? O QUE?!
     - Fique calada Natasha!!! - disse ele meio preocupado querendo adiantar um passo.
     - Calada? CALADA??? - urrei - QUEM É VOCÊ PARA ME MAND...
     Senti uma fisgada forte no meu abdômen. Abaixei um pouco mais quase caido no chão.
     - O que você fez comigo? Ahhhhhh - gritei de dor.
     - Fique quieta menina !!! - disse ele novamente subindo um degrau na escada.
     Urrei alto senti uma força descomunal saido de mim. Ínuaixa deu um passo pra trás, seu olhar era de tensão e entusiasmo.
     - Seu maldito!!!! - disse olhando nos olhos dele. Ele esbaforiu uma reação absorta. Voei sobre ele com uma fúria incontrolável, ele ergueu uma das mãos antes de eu o tocar e tudo se clareou. Perdi a consciência.

                                                 ...

     - Natasha... Natasha!!
     Eu sentia como se estivesse caindo de um abismo, mas na verdade estava voltando pro corpo. Era como se estivesse em um redemoinho, girando e caindo desenfreada.
     - ahhhh!! - gritei assim que abri os olhos. - O QUE ESTÁ ACONTRCENDO? O QUE ESTÁ ACONTECENDO??? - perguntei me debatendo enquanto descortinava os olhos esbugalhados e vermelhos.
     - Calma, calma! - disse uma voz bem a minha frente.
     Senti uma água esguichando no meu rosto. Assutei, pois minha visão estava ainda turva. Olhei pra cima e vi Nhandeara meio plasmado com uma cuia vazia  na mão.
     - como você esta?
     - Como estou? - perguntei ironicamente - pareço bem? - cocei os olhos tentando realinha-los.
     Nhandeara me olhava com certa admiração e excitação. Sua respiração estava levemente ofegante. Eu não estava entendendo nada, pois houve alguns segundos de silêncio que pareceram para mim uma eternidade. Aos poucos eu pude perceber melhor as coisas ao meu redor.
     - O que o senhor está fazendo aqui? - perguntei tentando me levantar, mas algo me segurou no chão.
     - Estava esperando você voltar do seu desdobramento.
     - Voltar? Então o senhor sabia qu... - forcei meu corpo novamente para me levantar, mas algo prendia minhas pernas no chão. - Mas o que está me segurando no chão!? - já estava ficando sem paciencia, e a presença do Cacique Nhandeara me deixava meio sem graça pra dizer umas boas palavras! Ele parecia esconder algo de mim e aquela sensação estava alem de constrangedora muito estranha.
     - Natasha, minha pequena, hoje você deu um grande salto na sua vida energética nesse mundo - dizia ele pacifico e melancólico - a partir de hoje você não mais ser...
     - Senhor... Desculpa, mas eu quero me levantar - cortei ele enquanto forçava meus pés. - tem alguma coisa me segurando? - perguntei tentando ver o que era, Nhandeara que estava na minha frente se levantou meio titubeante. Olhei pros meus pés e dei um grito!
     - O QUE É ISSO????
     Meus pés e pernas estavam todos cobertos por raizes, folhas, galhos... Mas não parecia que alguem tinha os posto ali, era como se saíssem de mim! Como se meu corpo da cintura pra baixo tivesse se transformado em uma árvore estranha e contorcida.
     Gritei desesperada enquanto arrancava da minha pele toda aquelas coisas. Nhandeara me olhava cobiçoso, como se não pudesse acreditar. Seus olhos brilhavam, como se a sua frente houvesse uma pedra preciosa a muito cobiçada. Ele mordia levemente seus lábios tamanho sua excitação.
     - Senhor! Por favor, me ajude!!! - implorei enquanto arrancava das minhas pernas os punhados de raízes e galhos.
     - Não posso Natasha, somente você é capaz de tirar sem te causar dor...
     - como assim? - arranquei mais um outro punhado e arremessei pro lado.
     - É sua conexão com a terra filha, você não só deu um passo nesse desdobramento, você foi muito mais além. É só olhar...
     - Senhor... - tirei os últimos galhos da perna direita - o que vão falar de mim? - perguntei imaginando a cara de Ceci e Saíra. - estou parecendo um bicho... Uma árvore... Ai meu Deus do céu!!!
     - Ninguém poderá saber filha, - ele se abaixou a meu nivel, pegou minha mão e apertou forte ao peito - o que você fez ou viu hoje, ninguém poderá saber Natasha, ninguém!
     - COMO NÃO?!!!  - gritei sem perceber, parei, engoli a seco e continuei recomposta - estou parecendo uma arvore!! Vou contar sim!!!
     - Não, você não vai!
     Nhandeara me encarou com aqueles olhos negros, frios e profundos, sentir o vazio em seu coração, aquilo me deixou confusa e sem chão. Nhandeara é um cacique influente na nossa tribo, está sempre com Kananciuê e Yakekan. Aquilo me deu muito medo.
     - Esculte filha, - ele pegou algo de dentro de uma bolsinha de couro de javali que estava presa em seu peito e Me deu. - esta é a lagrima de Xavú, guarde-a contigo, e no momento certo saberá usa-la. Ela vai te dar as resposta que precisar. Eu não tenho a permissão de te explicar nada aqui, desse jeito como estamos. Mas por favor, guarde contigo essa lágrima, ela será muito importante na sua nova caminhada.
     Olhei aquilo estupefada, sem reação. Algo me induzia a pegar, e eu sentia que não era algo bom. Peguei aquela pedrinha na mão e a segurei. Era pequena, parecia feito de seiva de âmbar. Olhei praquilo, tão pequena e tão misteriosa e guardei em minha bolsinha. Não sabia o que responder, não sabia se deveria agradecer... Preferi ficar no silencio.
     - Não precisa me agradecer filha... - disse ele se levantando, - no tempo certo me procurará, e lembre-se, - virou-se para mim inerte no chão , não conte a ninguém, a ninguém!
     Nhandeara sumiu na mata tão misterioso quanto apareceu. O que era aquela pedra? Por que eu não podia falar para ninguém? Eu pensava enquanto arrancava os tufos de folhas e galhos presos nas minhas pernas com toda pressa e força que eu pudesse ter.


....continua.



M. L.
   
   

   

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Pagina 21 Ínuaixa

     Fiquei agachada, abraçada as minhas pernas até consegui me acalmar. Respirava lenta e profundamente tentando conter meus impulsos. Não podia ficar assim, isso era fato. Mas o problema era essa minha personalidade forte, as vezes eu não podia com ela... Senti de relance um farfalhar bem perto de mim, um arrepio me subiu pelas cosas de forma abrupta. Algo se aproximou de mim, travei de imediato. Tranquei a respiração para poder ouvir melhor. Eu ainda estava cabisbaixa e agachada quando, olhando entre meus braços vi dois pés pararem na minha frente.
     - Natasha? - disse a voz.
     Laguei meus braços e olhei pra cima. Era um velho indio de cabelos curtos brancos e bagunçado, com marcas, simbolos, colares e rugas espalhadas por todo aquele corpo velho da cor âmbar.
     - Sim... Sou eu... - respondi meio paralisada por aquela figura impar e indecifrável. - e tu, quem é?
     O velho índio baixou- se ao meu nivel e sentou-se encostando na arvore que eu estava. Olhei para suas pernas magras e seus dedos finos e sujos da terra umida, minha mente foi muito longe. O velho puxou umas pernas e apoiou um dos braços.
     - Inuaíxa...
     - Inuaíxa? Seu nome?
     - Sim minha pequena.
     Ele, naquele momento, virou o rosto focando bem profundo em meus olhos. Senti que estava sendo lida de dentro pra fora, aqueles olhos castanhos bem claros entraram dentro de minha mente me absorvendo a energia pesada que eu estava carregando. Dei um pulo do chão ficando de pé  e de frente aquele velho índio. Senti no exato momento o mundo girando, segurei a arvore e segurei minha fronte com a mão.
     - O que você fez comigo? - perguntei quase perdendo as forças da perna.
     - Não falei para você se levantar!! - disse ele com a voz rígida. - Sente-se!
     Aquilo foi de mais pra mim! Quem é esse homem que surge do nada e ao ponto de me ordenar a sentar!!!
     Meu corpo estava muito pesado, não conseguia ficar em pé. Sentei novamente no chão... Estava totalmente zonza...
     - Fique quieta menina... - disse o velho, como se estisse me dando bronca.
     Eu estava tão grogue, que acabei respondendo "sim..." sem querer.
     - Me dê sua mão... - disse ele puxando minha mao direita que estava fria e mole. Olhei com a visão turva que ele movimentava os polegares na minha palma enquanto entrava em uma especie de transe. Tentei de toda forma puxa-la de volta, mas não tinha força alguma. Eu só ouvia sua voz grelhada dizendo " muito bem... Muito bem!!!" 
     Ficamos ali pelo tempo suficiente para ele me tirar do corpo. Em minutos eu estava diante de um altar de pedra, dentro de uma caverna penumbrosa. Olhei sobressaltada para todos os lugares tentando achar uma saida, mas nada me chamou a atenção mais que o brilho que vinha daquele altar. Eu sentia que alguem me estigava a ir até, uma sensação de uma voz me guiando. Na minha mente só vinha a imagem daquele velho estranho. Eu tinha que ir la , mas ao mesmo tempo nao queria. Meus pés iam pra frente enquanto o outro me puxava para tras. Pus as mãos na cabeça e gritei desesperada!!
     " filha... Não precisa fazer isso... - disse uma outra voz, que certamente nao era a do velho indio - Volte filha, volte para seu corpo"
     - Quem está ai!? - urrei a todo pulmão...
     Senti uma luz projetar bem fraquinha do meu lado direito. Olhei súbita pra ela, e no instante seguinte uma pessoa saiu, como se houvesse uma porta ali.
     - Não precisa filha, - disse Kananciuê com a voz calma, pacifica e amorosa, - eu posso te ensinar tudo pelo caminho certo...
     Senti naquela hora uma fúria se abrir de minhas entranhas, como se algo dentro de mim fosse pular para fora, perdi um pouco o sentido enquanto cambaleei para trás. Essa sensação não era minha, era do velho dentro de minha mente!
     - SAIA DAQUI!!!! - Urrou ele por minha boca. Eu não estava entendendo nada...
     - Natasha... Natasha minha filha, lute contra esse poder!!!
     - SAIA DAQUI VELHO MALDITO!! SAIAAA!! - Urrei sem querer. O velho me dominava por completo.
     Kananciuê me encarava com aqueles olhos piedosos. Nao era que eu não estava fazendo nada para mudar aqui, eu simplesmente não queria! O que tinha naquele altar? O que eu não poderia ver? Por que kananciuê estava ali para me impedir? E eu me conheço muito bem... Eu sou topetuda, não sou como Saíra ou Ceci, passivas a tudo... Eu sou diferente... Eu sou Natasha!!!
     Enfrente de peito kananciuê e segui ate o altar de pedra. Seu olhar terno me seguiu até onde foi possível. Eu estava tão decidida que olhei de relance para trás e o velho kananciuê não estava mais.
     Subi umas poucas escadas de pedra até chegar ao altar que emanava uma coloração esverdeada, como se uma grande esmeralda tivesse emanando para aquele mundo obscuro sua tênue coloração. Meu peito arfou. O que seria aquilo? Por que aquele velho que nunca tinha visto queria que eu estivesse ali, por que? Olhei pro chão, faltava apenas três degraus, e aquele tesouro estaria em minhas mãos. Respirei fundo e subi...
     Toquei a estrutura de pedra com as duas mãos, não era uma esmeralda que meus olhos viam, era um globo de cristal com uma energia esverdeada viva dentro. Tetei puxar minha mão, mas o velho índio a segurou forçando a ficar.
     - Pegue-a!
     Olhei pra ele e olhei pro globo. Meus olhos focaram o horizonte, foi quando saltei do chão... Haviam vários corpos caídos abaixo daquele altar, eram jovens índios e jovens índias, meus olhos exclamados expressavam o medo e pavor daquele lugar.
     - Pegue o cristal menina! - disse o velho com a voz firme e pútrida quanto a morte que rondava aquelas paredes. Eu o obedeci. Tirei o globo do altar e segurei com as duas mãos, a energia pulsava gigantesca de dentro dele, por um segundo sua luz exposta incandeceu toda a caverna. Tentei largar o globo, mas era rede de mais... A energia viva pulou dentro de mim pelos olhos e pela boca. Perdi totalmente o controle de mim... Sentia que algo vivo e monstruosamente forte me espancava por dentro, senti meus pés levitando como se não mais houvesse inercia. Lembrei-me de kananciuê, mas era tarde de mais. Lá embaixo eu ouvia o riso medonho daquele velho, que reverberava por toda a caverna. Ele conseguiu o que tanto procurou... Um envólucro para aquele poder!



...continua.



M. L

sexta-feira, 15 de maio de 2015

pagina 20 Inconformada... Enfurecida

     Qual a cara da desilusão? E o cheiro da decepção? Bem... Eu não sei. A única coisa sobre mim que eu não sabia, era que eu nao  estava bem... Estava péssima! Resumida! Por fim acabada...
     Sai da maloca a passos lentos e pesados. A aldeia estava viva e vibrante como sempre foi, mas apesar das cores, eu só enxergava o preto e o branco. Via e sentia as pessoas passando por mim, as vezes me chamando e eu as ignorava ... Estava inerte a tudo aquilo.
     " por que eu sou assim? " pensava enquanto seguia cabisbaixa. " por que para as outras pessoas é tão fácil, mas pra mim... - parei por um segundo engolindo o choro - pra mim é tão difícil..."
     - Que merda! - xinguei alto.
     Nem me importei se alguem havia ouvido. Não me importava com mais nada... NADA!
     Fui bem devagar ate chegar ao leito do rio. Aquela manhã estava calma e o rio parecia-se comigo. Morto! Sentei-me na prainha, deixei que meus pés descalços tocasse a agua, para quem sabe, me fazer sentir melhor... Mas nada! Os minutos se passavam e eu estava ali, do mesmo jeito. Perdi a conta de quantas pedrinhas joguei no rio descontando minha indignação.
     - Natasha... - me chamou uma voz. Era Saíra.
     Olhei para trás querendo sinceramente sentir o que senti quando a vi na outra dimensão, mas fui apunhalada por mim mesma. Olhei praquele rosto jovial e quis torcer seu pescoço. A raiva que eu senti foi o pior sentimento até aquele momento. Me levantei e corri me embrenhando na mata densa da floresta. Tive que fugir ou ia descontar minha fúria em Saíra que não tinha nada a ver com meus erros. E ela ficou lá... Me olhando com aqueles olhos profundos e escuros.
     Corri desenfreada mata a dentro, o barulho dos meus pés esmagando as folhas secas não era o suficiente para abafar meu peito arfante. Eu corria prestes a explodir. Estava sem rumo, sem direção...
     "Filha, equilibre sua mente "  disse uma voz em minha mente. Eu estava tão descontrolada que não dei ouvidos.
     " Filha, não se entregue dessa forma, vocês estão sobre forte pressão energética, e os testes estão para serem vencidos..."
     - Cala a boca... CALA A BOCA!!!!! - Urrei a todo pulmão me apoiando em uma arvore. Meu corpo deslizou e tocou o chão.


... continua.



M. L

quarta-feira, 13 de maio de 2015

pagina 18 Divino Espelho Dágua

     " Estranha sensação de leveza" era a única coisa que se passava em minha mente. Eu pisava naquela grama e a cada passo dado um conforto maior se apoderava de meu ser. Como era bom estar ali!!
     Olhei pro lado e entre as arvores puder ver a beleza de um distante lago prateado, senti vontade de ir até lá...
     - Natasha!!! - gritou Saíra, que segurava minha mão.
     Olhei pra baixo e quase dei um grito. Eu estava flutuando, quase a meio metro do chão. Saíra me segurava puxando pra baixo. Ouvi uma risadinha vindo da Danra que estava logo atrás de nós.
     - Mãe, o que esta acontecendo? - perguntei tocando os pés no chão.
     - Filha, não esqueças que não estas no corpo físico. Aqui, nessa dimensão, quase tudo é possível... E volitar está dentro das possibilidades. - e sorriu acariciando minha cabeca .
     - Mas que estranho... Acho que levitei quando pensei em ir ate aquele lago - disse olhando para o divino espelho dágua.
     - Em breve filha saberás controlar melhor teu corpo nesse plano paralelo...
     - Plano paralelo?
     - Isso filha, - disse-me ela com ternura - mas vou deixar que alguém em especial lhe explique melhor essa parte. - sorriu.
     Vi a Danra se afastando enquanto me banhava de incertezas. Não sentia medo, sentia algo forte em meu peito, como se fosse explodir, uma empolgação crescente...
    - Filhas... - disse uma voz em minha cabeca. Assustei salteada. Olhei pra saíra e ela estava assim como eu.
     - Ouviu aquilo Saíra?
     - Ué, você ouviu também?
     - Minhas pequenas, és chegado a hora da lição de vocês. Se aproximem...
     - Saíra, olhe! - apontei mais a frente. - É Kananciuê?
     Saíra notou que todas as índias já estavam sentadas em volta de um velho índio que trajava uma roupa altiva e clara. Dele emanava uma tênue claridade.
     - Nossa Natasha, estão todas lá... - disse me puxando pela mão - Vamos logo!
     Fui sendo levada pela mão macia e suave de Saíra, ambas corríamos leves, como se pudéssemos voar. Ver e estar ali, naquele lugar tão único me deixava aliviada e feliz. Por um momento me lembrei da aldeia onde meu corpo dormia. Lembrei-me de Ceci, lembrei-me de Moara. Naquele momento meu peito arfou, não gostei de ter lembrado daquela... senti que aos poucos eu fui mudando, a áurea que me envolvia, antes leve, pesou um pouco.
     - NATASHA! - berrou saíra do meu lado.
     - O que foi?
     Quando soltei a mão de Saíra percebi que eu não estava mais como ela, clara e irradiante. Olhei apreensiva para Kananciuê e ele me fitava com ternura enquanto as outras índias pareciam não me ver mais. De repente tudo rodopiou e meu corpo se fechou pesado. Voltei a sentir a mesma sensação do corpo físico. Senti frio e tive medo.
     " O que eu fiz.... O QUE EU FIZ!?" Me perguntava enquanto regressava repentina a meu corpo inerte e frio. Logo a sensação voltou. Raiva, ódio, e inconformação!
     - Nao quero voltar, NÃO QUERO VOLTAR!!!!
     Abri meus olhos físicos e notei que algumas índias caminhavam na maloca escura enquanto outras ainda doormiam no chão, provavelmente as que estavam no outro plano.
     - Voltei... - falei decepcionada .
     Não consigo explicar a sensação que senti naquele momento. Não sei se foi impotência, desilusão, agonia... Por uns segundos, que para mim, naquele momento, foram horas. Chorei sem uma lagrima derramar. Foi o mais doloroso dos choros... Parecia que minha alma se debandava em lagrimas. Foi horrível!!!!
     Fiquei sentada, encostada em uma tora de madeira ate ouvi os primeiros cantos dos pássaros. Eu senti, minuto por minuto, segundo por segundo o tempo rindo de mim. As índias que estavam acordadas foram a muito liberadas para suas malocas, ficando apenas as que dormiam e eu...
     Meu rosto sem expressão fitava sem vida um horizonte que não estava ali, que me baniu apenas por sentir o que sinto, o que eu sou por natureza... Aqueles últimos momentos estavam sendo os piores! Eu me martirizava me apunhalando, me sufocando, me agonizando. Ninguém era responsável por eu não ter conseguido, a não ser eu. Nem Moara teve, por mais que eu a quisesse morta, ela não teve culpa...
     O dia raiou, os caciques que ficavam na porta saíram, deixando a entrada da maloca aberta. E eu sai, sem vida...


... Continua.


M. L