segunda-feira, 10 de julho de 2017

28


     Eu me remexia nos braços daqueles bichos grotescos que me segurava enquanto Inuaiaxa vinha a passos lentos ao meu encontro. Eu estava acabada, sem esperança de sair dali. Não tinha forças nem para chorar, muito menos para pedir ajuda. Esperança de morte? Não. Pois sabia que estava viva, muito viva no meu corpo de carne. Inuiaxa se aproximou baixando aquele rosto seco e velho a altura dos meus olhos vermelhos de raiva. Minha respiração ofegante era como um dragão cospindo fumaça pela narina em chamas. Tentar escapar naquela situação era impossivel, por maior que fosse minha ira, ela não me tiraria dali. Inuiaxa pôs a mão direita em meu ombro enquanto tentava me acalmar com sua voz rigida e aguda. Meu ombro estranhamente ia adormecendo a medida que ele dava leves apertões. Logo eu estava adormecida, parada, drogada, ridicularmente dominada. Cai no chão de joelhos sem vida, mas não morta. Inuiaxa sorriu afastando-se de mim, pude ver por seu semblante o gostinho de vitória que exalava do seu corpo e ser. Por que eu? Me perguntava, porque!? O que eu fiz? O que meu pai o Grande Nhandeara estava trantando com aquele patife esquelético, shaman da morte. Encostei as mãos, vencidas, no chão. Aos poucos minha respiração ia normalizando.
     - O que quer de mim Inuiaxa...? - perguntei vazia totalmente por dentro. - O que eu fiz que valha tanto sacrificio? Olhei aquele velho virando para mim, seus olhos brilhavam. Eu era seu maior tesouro, algo que sua putrida experiencia de vida deposiva em mim sua esperança... mas de que?
      - Não me queira tão mal menina... - disse ele, mesmo longe, agachando como eu. - esse mal todo que me tem logo se tornará em devoção suprema. Sabias que estamos ligados por fios tão poderosos quanto o fio que liga sua alma ao seu corpo? Vou me apresentar a você, assim, quem sabe, poderá ter por mim a admiração que tenho por você.
     "Quando tinha a sua idade, um velho indio que se chamava Shamanati, recebendo ordens de seres além de nossa compreensão, me preparou para ser o pajé da tribo Caeté. E sob suas ordens passei toda minha juventude buscando ter todo seu conhecimento sobre ervas, shamanismo e elos espirituais. Eu tinha sua idade quando fui banhado na sagrada cachoeira do grande falcão branco. Lugar sagrado, demasiadamente longe, e que somente os escolhidos podiam se aventurar. Saí dali iniciado no shamanismo, sentindo e vendo tudo... tanto na terra quanto no astral superior. Eu tinha livre acesso as chaves que abriam portais para mundos inimagináveis, materializava instrumento que proporcionava avanço para nosso povo! Eu era o grande prometido, aquele que trazia do céu o conhecimento e a magia. Segui por esse caminho durante a vida toda, vi homens nascer e morrer, lutas e conquistas ganhas sobre a minha magia. Tinha eu, definitivamente, o dominio de todo aquele povo, mas aquilo, de certa forma, não me era o suficiente. Eu comecei a querer ser mais, ter mais! E mesmo sob as ordens dos velhos ancestrais que me abdicavam punindo-me quando errava, eu fui em frente. Não queria somente o dominio do nosso povo, queria o dominio de toda a planicie florestal que dominavamos. Os povos iam sendo vencidos sob nossa magia, e submentendo-se ao nosso comando. No decorrer dos anos, tinhamos mais escravos que homem nativos em nossa terra. Nosso imperio cresceu e floresceu, fazendo tremer até tribos muito longicuas a nós. Eu, Inuiaxa, o Grande Shaman conquistara o respeito e o poder de todo aquele povo que lutavam para sobreviver. Tinhamos tudo, graças aos meus conhecimentos. Um dia, fui avisado que o poder ali materializado iria subir... subir, para nós na nossa linguagem, era ser desintegrado, aniquilado por mal uso. Por maior que fosse minha ambição eu possuia contato direto com os velhos espiritos que tentavam de tudo parar com meu avanço... mas aquilo era mais forte que eu... eu queria mais! Muito Mais! Passaram-se varias luas, varios sacrificios foram feitos para os velhos Deuses para engrandecimento de meu poder abaixo do deles, e naquela madrugada, um brilho diferente brotou no ceu estelado... um vermelho escarlate projetou como um raio desintegrando todo aquele povo que veneravam a mim e aos céus. Fomos delacerados, sem chance de ao menos revidar, pelos povos das estrelas. Eu via meu povo caindo sem vida manchando de sangue aquele chão que pisara um dia como um Deus vivo entre os homens. Eu vi toda minha civilização erguida sobre monte de pedras milenares sendo desintegradas por uma força além da minha, eu via as almas desesperadas vendo seus corpos multilados no chão, sem vida, sem esperança. Ouvia os choros da morte ecoando nos destroços daquela noite dantesca. Em seguida o silencio. Tudo fora erguido por uma força magnética, teleportado ao fundo do lago que veneramos. E lá estão todos os corpos, todos os remanescentes de nosso povo, e para traz, restou nós... mortos mas vivos, agora no astral inferior, sobrevivendo do que nos resta. A energia de vocês que camiham com vida na Terra. Estou caminhando desde então, buscando uma forma de retornar ao mundo pelo acoplamento magnetico, uma forma perfeita onde poderei novamente ter um corpo para dar continuidade ao que não consegui terminar. Você me surgiu como um verdadeiro emvolucro, um recipiente para meu reencarne.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

27 Novamente a Caverna

     Não sei quanto tempo havia passado desde o momento que apaguei na aldeia.  Só me lembro do barulho irritante da gota tocando incessantemente uma pocinha de água dentro daquele lugar fétido e escuro. Estava eu mais uma vez dentro de uma caverna monstruosa, lodosa e mal iluminada. Haviam tochas presas nas paredes, fincadas no chão, espalhadas todos lugares. A cor amarelada dava um ar melancólico ao lugar. Levantei olhando a volta. Tudo estava quieto, exceto pelo barulho irritante da goteira ao meu lado. olhei praquilo e quis vomitar, era uma água lodosa e fétida. Me afastei.
     - Olá!! - gritei.
     Sentir minha voz perder vida nos corredores sem fim da caverna foi a sensação mais estranha que já tive em minha vida. Onde eu estava? Precisava acordar! Sei que estava dormindo no corpo.
     Procurei uma pedra, um pau, sei lá... algo que pudesse me causar dor a fim de despertar no meu corpo. Olhava de um lado pro outro e não via nada que pudesse me ajudar. Tirando o veio de água pútrida no chão, o resto estava vazio.
     - Merda! Preciso acordar... será que as outras índias estão aqui? - falei baixinho pra mim mesma. Tentava me localizar, era preciso agir... andar... sair dali. Comecei a andar, procurando ficar proximo a parede, nunca se sabe o que pode acontecer.
     "O olho!!!" Pensei abrindo minha mão. Arfei ao ver que estava vazia. Olhei ao redor. Nada vi. "Perdi o olho?"  Definitivamente não sabia se ficava feliz, ou se chorava. Era uma sensação indecifrável que me deixava inquieta naquele inferno.
     - OLÁÁÁÁ!!! ALGUÉM AQUI!? - Gritei novamente. E nada! - Caramba! Estou só! Lembrei-me de Kananciuê... senti um aperto fino no peito. O que realmente eu estava fazendo da minha vida? Me questionei. Tudo estava tão confuso, estranho.
     - Lá está ela! - disse de repente uma voz engrenhada. Olhei pra trás assustada. Eram duas figuras escuras na penumbra. Só via a silhueta sombria.
     - Quem são vocês!? - Perguntei apoiando um dos pés para trás. Estava pronta para correr a qualquer momento.
     - Calma princesa... somos do bem. - Um olhou pro outro e deram uma gargalhada monstruosa que me encheu de arrepios. Aquilo não podia ser um humano, não podia. A caverna chega trameu! - Não somos do bem... mas não somos do mal... quer dizer... - parou a sombra de falar. O outro deu-lhe um tapa na nuca que me deixou sobressaltada. Ambos riram novamente.
     - Me deixe sair daqui... por favor...
     - Sair? - riram novamente. - Impossível princesa... impossível.
     Comecei a chorar. Me joguei no chão aos prantos. A sombra menor se aproximou se mostrando a luz da tocha entre nós. Levantei meus olhos vermelhos e quase caí pra trás. Aquilo não era uma pessoa, não era um índio, um ser comum, era um monstro. Tinha o corpo de um homem comum, cheio de deformidades pelo corpo, olhos esbugalhados, coluna protuberante, unhas grandes e grossas. Um cheiro que me lembrou Sabuí estragado! Eu quis correr, mas algo me prendeu ali.Olhei pros meus pés e havia uma corrente trançada neles. Como isso foi parar aqui!? Tentei me livrar daquilo. Era impossível! A fera se aproximava enquanto eu urrava de medo e temor. Os dois não riam, gargalhavam de mim. Segundos depois aquelas mãos horrendas me puxaram pra cima em conduzindo para o fundo da caverna. Caminhamos por tuneis estreitos e lodosos, eu sentia ânsia de vomito só de pensar em tocar aquelas paredes úmidas e gosmentas. Um deles falou:
     - Inuiaxa já chegou?
     - Certamente que sim. Ele não se atrasaria. - respondeu o outro com desdem.
     "Eu sabia que isso era coisa daquele coisa ruim!"  Pensei quando sentir minha cabeça rodopiar. Os dois bichos me seguraram quando fui me vendo em outro lugar. Estranha aquela sensação. Era como se eu estivesse em dois lugares ao mesmo tempo. Já havia presenciado esses fenômenos enquanto acordada, mas dormindo nunca!
     Naquele momento minha visão ficou turva, como se eu tentasse ver através de um espelho d'água. Eu ouvia vozes. Eram dois homens conversando. Eu percebia algumas arvores, pois as via balançando seus galhos com força. A media que os dois monstros me sacudia, eu ia mais adentrando naquele mundo estranho. As vozes, que antes estavam longe, iam se aproximando mais e mais. Aos poucos eu pude entender o que diziam.
     - Ela é fenomenal. Bem como você havia dito!
     - Eu sei! - Respondeu o outro. - Kananciuê tem um grande amor por ela, e isso dificultou um pouco dela se aprofundar nas...
     Meu coração arfou. Aquelas vozes...
     - Vou transforma-la numa excelente recipiente para a Anhagá. - disse a voz mais velha.
     "Inuiaxa?" 
     - Não se esqueça do trato que fizemos... - lembrou a voz masculina mais jovem.
     - Claro que não! Agora preciso ir, vou ter-me com ela.
     - Não machuque minha filha... só te peço isso...
     "Pai!?"
     - Claro que não. - Respondeu o velho com a voz risonha.
    De repente a visão turva foi sumindo, sumindo, me deixando nítida no corpo na caverna.
     "Com quem meu pai tem um trato?" Pensei abismada. Eu já nem ligava dos socos e beliscões que recebia dos bichos feios que me seguravam. Só via meu pai na minha mente. O que ele fez com aquele velho maldito? Que trato foi esse que diz respeito a mim!?
     - NA-TA-SHA! - soletro uma voz que tinha um timbre que começava a odiar. Levantei minha cabeça e vi Inuiaxa a minha frente, com os braços estendidos, com um sorriso de orelha a orelha. Atras dele dois outros lacaios que não pude identificar direito. Meu coração foi a boca e voltou.




continua...























segunda-feira, 3 de julho de 2017

26 Ancestrais

 
     Já anoitecia quando caminhava ainda sem rumo na floresta. Aos poucos, os pássaros iam se recolhendo,dando lugar a os coaxares longes dos sapos ribeirinhos. Aquilo tudo era muito lindo, o som que vinha da floresta era fenomenal, impossível não se acalmar com tudo aquilo. Eu olhava pasmada o cair da penumbra na floresta, clima quente e úmido ia se transformando trazendo na brisa que soprava um acalanto para minhas indagações. Eu estava parada, em mim apenas os cabelos longos meneavam com o séfiro que soprava, minha mente vagava sem rumo. E ali, estatelada na trilha que dava para a aldeia, olhando a fogueira longe tilintando sua chama âmbar que tremeluzia com o sopro fraco do vento. Aquele era o dia que nos reuníamos para reverenciarmos nossos ancestrais, nossa tribo fazia isso sempre que um ente querido morresse, ou por morte natural, ou por ataque de animal.
     "Não sei se devo me reunir com os demais... me sinto tão estranha..."  Pensei baixando um pouco a cabeça. Naquele momento senti uma brisa passando por mim! Um acalanto estranho que me trazia a memória de minha mãe, a Danra Nahimana. Senti a garganta travar, respirei fundo, olhei pra cima com os olhos marejados e andei... andei adentrando na aldeia.
       Enquanto caminhava, meus olhos miravam meu povo se reunindo ao redor da fogueira, aquele momento fui me remetendo a toda minha infância, quando meus pais me mostravam o mundo desconhecido da floresta. Quando era jogada no rio por Açuã, quando Ceci vinha correndo me mostrar uma borboleta linda que conseguiu segurar nas mãos, quando eu maldizia das curvas de Moara... Perdi a conta das vezes que estive sentada ali toda feliz ouvindo meu pai falando dos nossos ancestrais... e hoje... nem meu próprio pai está mais perto de mim. Me sinto só... vazia... com um peso que não sei explicar em minha mente...
     Então, senti uma mão tocando-me o ombro. Sobre saltei olhando para trás. Eu conhecia bem aquelas mãos quentes por natureza e firmes como rocha. Meu pai tocava meus ombros com ternura e aquilo foi o suficiente para me desmoronar de vez! Toda aquela muralha de pedra que construí nesses últimos dias. Abracei-o chorando copiosamente, senti suas mãos amáveis me acariciando me deixando estranhamente segura, uma sensação que pareço ter esquecido do sabor.
     - Pai... - tentei dizer, mas o grande cacique me calou encostando seu dedo levemente em meus lábios. Sua feição paterna me dava toda a segurança que eu precisava.
     - Eu sei minha filha, o quanto tens sofrido para chegar onde chegou, e sei ainda da dor que terás que conduzir daqui para frente com o peso que adquirira recentemente.
     Parei para pensar enquanto secava meu rosto.
     - Está com o olho? - Perguntou-me ele.
     Assustei-me de prontidão. Fiz o gesto com a cabeça que pareceu me trazer toda a tempestade que a pouco havia se sessado.
    - Como sabe? - Perguntei. Meu pai puxou me próximo ao Moti, onde todos se reunião. Olhou gentilmente para mim e saiu reunindo-se junto aos demais caciques da tribo. Ele sabia que eu o segurava em minhas mãos! Seus olhos me diziam sem seus lábios proferir. Abri minha mão e o olhei. Ele estava ali... me encarando... sem pestanejar!
     - Natasha. - me chamou Saíra surgindo ao meu lado. Quase infartei de susto. Olhei para ela fechando de imediato a mão. - O que você estava olhando?
     - Por que? Eu olhando? Estava olhando nada não...
     - Como não. - disse ela bem baixinho, naquele momento via que meu pai já falava com todos. - Você está olhando para sua mão por quase meia hora.
     - NÃO!
     - Xiiiiiiiii! - fez ela me puxando mais pra baixo, alguns índios olharam para trás retorcendo o bico.
     - Saíra... eu só... - parei por um tempo - não é possível! Eu só olhei pro olho por um segundo...
     - Olho?
     - S-sim... quer dizer...
     - Deixa eu ver! - implorou Saíra abrindo minha mão com curiosidade. - Cade? - Parei fitando ela.
     - Aqui...
     - O que? Essa semente de Mucunã?
     - Não! Isso é um olh... - parei fitando os olhos de Saíra que me olhavam profundamente. Senti vergonha naquele momento. Fechei a mão e o apertei fazendo veias sobre a mão. - Me deixa Saira!
     - Não se preocupe Natasha... cada um está passando pela prova que necessita para evoluir nesta Terra...
     Olhei pra ela e olhei para meu Pai enquanto terminava sua oratoria. Saíra falava aos meus ouvidos enquanto eu, mentalmente vibrava para que ela fosse embora.
     - ... você um dia vai entender que isso é para o bem de todas, um dia meu pai...
     Saíra não parava de falar, e eu apertei o olho vibrando para que ela tivesse uma dor de barriga, e me deixasse em paz, em segundos eu ouvi um grunhido. Olhei pra Saíra e ela punha as mãos no ventre, sua feição não era a das melhores.
    - Saíra... você está bem? - Perguntei segurando sua mão, que estava fria e tremula.
    - Ai! Ta me dando...
     Vi Saíra se levantando as pressas sumido na escuridão enquanto eu a encarava abismada.
     - Será que...? - disse baixinho abrindo a mão encarando aquele me me fitava de forma sinistra.
     - Ele é maravilhoso, não é?
     Olhei assustada para o lado e vi Inuiaxa me encarando com um riso profundo nos lábios, seus olhos estreitos espremidos me encarava com ambição. Dei um grito caindo para trás. Aquela foi a ultima cena que me lembro daquele dia terrivel.




Continua...