segunda-feira, 3 de julho de 2017

26 Ancestrais

 
     Já anoitecia quando caminhava ainda sem rumo na floresta. Aos poucos, os pássaros iam se recolhendo,dando lugar a os coaxares longes dos sapos ribeirinhos. Aquilo tudo era muito lindo, o som que vinha da floresta era fenomenal, impossível não se acalmar com tudo aquilo. Eu olhava pasmada o cair da penumbra na floresta, clima quente e úmido ia se transformando trazendo na brisa que soprava um acalanto para minhas indagações. Eu estava parada, em mim apenas os cabelos longos meneavam com o séfiro que soprava, minha mente vagava sem rumo. E ali, estatelada na trilha que dava para a aldeia, olhando a fogueira longe tilintando sua chama âmbar que tremeluzia com o sopro fraco do vento. Aquele era o dia que nos reuníamos para reverenciarmos nossos ancestrais, nossa tribo fazia isso sempre que um ente querido morresse, ou por morte natural, ou por ataque de animal.
     "Não sei se devo me reunir com os demais... me sinto tão estranha..."  Pensei baixando um pouco a cabeça. Naquele momento senti uma brisa passando por mim! Um acalanto estranho que me trazia a memória de minha mãe, a Danra Nahimana. Senti a garganta travar, respirei fundo, olhei pra cima com os olhos marejados e andei... andei adentrando na aldeia.
       Enquanto caminhava, meus olhos miravam meu povo se reunindo ao redor da fogueira, aquele momento fui me remetendo a toda minha infância, quando meus pais me mostravam o mundo desconhecido da floresta. Quando era jogada no rio por Açuã, quando Ceci vinha correndo me mostrar uma borboleta linda que conseguiu segurar nas mãos, quando eu maldizia das curvas de Moara... Perdi a conta das vezes que estive sentada ali toda feliz ouvindo meu pai falando dos nossos ancestrais... e hoje... nem meu próprio pai está mais perto de mim. Me sinto só... vazia... com um peso que não sei explicar em minha mente...
     Então, senti uma mão tocando-me o ombro. Sobre saltei olhando para trás. Eu conhecia bem aquelas mãos quentes por natureza e firmes como rocha. Meu pai tocava meus ombros com ternura e aquilo foi o suficiente para me desmoronar de vez! Toda aquela muralha de pedra que construí nesses últimos dias. Abracei-o chorando copiosamente, senti suas mãos amáveis me acariciando me deixando estranhamente segura, uma sensação que pareço ter esquecido do sabor.
     - Pai... - tentei dizer, mas o grande cacique me calou encostando seu dedo levemente em meus lábios. Sua feição paterna me dava toda a segurança que eu precisava.
     - Eu sei minha filha, o quanto tens sofrido para chegar onde chegou, e sei ainda da dor que terás que conduzir daqui para frente com o peso que adquirira recentemente.
     Parei para pensar enquanto secava meu rosto.
     - Está com o olho? - Perguntou-me ele.
     Assustei-me de prontidão. Fiz o gesto com a cabeça que pareceu me trazer toda a tempestade que a pouco havia se sessado.
    - Como sabe? - Perguntei. Meu pai puxou me próximo ao Moti, onde todos se reunião. Olhou gentilmente para mim e saiu reunindo-se junto aos demais caciques da tribo. Ele sabia que eu o segurava em minhas mãos! Seus olhos me diziam sem seus lábios proferir. Abri minha mão e o olhei. Ele estava ali... me encarando... sem pestanejar!
     - Natasha. - me chamou Saíra surgindo ao meu lado. Quase infartei de susto. Olhei para ela fechando de imediato a mão. - O que você estava olhando?
     - Por que? Eu olhando? Estava olhando nada não...
     - Como não. - disse ela bem baixinho, naquele momento via que meu pai já falava com todos. - Você está olhando para sua mão por quase meia hora.
     - NÃO!
     - Xiiiiiiiii! - fez ela me puxando mais pra baixo, alguns índios olharam para trás retorcendo o bico.
     - Saíra... eu só... - parei por um tempo - não é possível! Eu só olhei pro olho por um segundo...
     - Olho?
     - S-sim... quer dizer...
     - Deixa eu ver! - implorou Saíra abrindo minha mão com curiosidade. - Cade? - Parei fitando ela.
     - Aqui...
     - O que? Essa semente de Mucunã?
     - Não! Isso é um olh... - parei fitando os olhos de Saíra que me olhavam profundamente. Senti vergonha naquele momento. Fechei a mão e o apertei fazendo veias sobre a mão. - Me deixa Saira!
     - Não se preocupe Natasha... cada um está passando pela prova que necessita para evoluir nesta Terra...
     Olhei pra ela e olhei para meu Pai enquanto terminava sua oratoria. Saíra falava aos meus ouvidos enquanto eu, mentalmente vibrava para que ela fosse embora.
     - ... você um dia vai entender que isso é para o bem de todas, um dia meu pai...
     Saíra não parava de falar, e eu apertei o olho vibrando para que ela tivesse uma dor de barriga, e me deixasse em paz, em segundos eu ouvi um grunhido. Olhei pra Saíra e ela punha as mãos no ventre, sua feição não era a das melhores.
    - Saíra... você está bem? - Perguntei segurando sua mão, que estava fria e tremula.
    - Ai! Ta me dando...
     Vi Saíra se levantando as pressas sumido na escuridão enquanto eu a encarava abismada.
     - Será que...? - disse baixinho abrindo a mão encarando aquele me me fitava de forma sinistra.
     - Ele é maravilhoso, não é?
     Olhei assustada para o lado e vi Inuiaxa me encarando com um riso profundo nos lábios, seus olhos estreitos espremidos me encarava com ambição. Dei um grito caindo para trás. Aquela foi a ultima cena que me lembro daquele dia terrivel.




Continua...