sábado, 24 de junho de 2017

25 Eu Sou Seu Mestre

     Estava totalmente fora de mim. Havia em minha mente um turbilhão de fortes emoções tomando conta de minhas ações. Eu, naquele momento, não sabia o que fazer, onde ir, com quem falar... nem conseguia gritar! Sentia fome, frio, medo, angustia, raiva, tudo o que não presta!
     As horas iam passando, eu ainda ali, parada, sem reação para nada... meus ombros pesavam, minhas costas doíam...
     - O que eu vou fazer? pensei enquanto batia levemente o tronco de uma arvore. Meus olhos miravam o céu, mas era como se eu não o visse. Tudo aquilo já não tinha sentido algum pra mim. Onde estava Kananciuê que não vinha me reconfortar com suas palavras gentis? Eu me sentia uma fera incontrolável...
     - Eu sei o que você sente... - disse Inuiaxa logo atrás de mim. Virei resmungando sem paciência.
     - O que você quer de mim seu velho nojento!?
     - Não sou eu que preciso de você agora, e sim você de mim. - respondeu com um certo ar irônico. Eu juro que ouvi um risinho sínico em algum lugar próximo a mim.
     - Vá embora... não quero nada com você!
     - Quer sim... - disse - e tem raiva de si mesmo por querer...
     - VÁ EMBORA!
     - Não, eu não vou menina... e não altere mais o tom comigo! - disse ele espremendo levemente os olhos.
     Naquele momento senti um peso em meu estomago, como se tudo que ali houvesse revirasse. Agachei sentindo muita dor. Tentei gritar, chamar alguém... ele me alertou.
     - Todos já acham que você é uma Padalá... se chegar alguém aqui e te ver falando com um nada, a provas terão se tornado reais.
     - Eles vão te ver seu miserável!!!
     - E você acha que podem realmente me ver?
     - AAAARGGGGHHHH! - Urrei de dor.
     - Volte onde jogou o olho!
     - Não! AAAARRGGGGHHHH!
     - Vou te pedir mais uma vez, não me faça repetir menina insolente! Vá buscar o olho!!
     - Não... eu NÃO VOU!
     Naquele momento senti tudo rodopiar, minhas vistas escureceram, não senti mais meu corpo. Ouvi risadas surgindo de todos os lados, as arvores deram lugar a paredes sombrias sombreadas por chamas em tochas rusticas fincadas em vários cantos da caverna. Ergui meu olhar a frente e vi Inuiaxa parado me encarando. Ele tinha em suas mãos um rosário escuro na qual passava seus dedos finos e frios. Senti que seus lábios pronunciavam palavras que eu não conseguia ouvir. De repente o desconforto voltou. Senti um punhal em meu estomago revirando e estraçalhando tudo. Cai novamente no chão urrando de dor. O velho índio me encarava sem piedade a medida que me castigava com sua magia imunda! No meio da caverna reverberava gritos e risadas esganiçadas que rasgavam meus ouvidos. Estava presa num mundo que não conhecia. Um mundo pesado, das trevas na qual o velho índio certamente comandava.
     - Eu sou seu mestre agora! Deve-me respeito menina... - disse ele deixando sua magia de lado. Senti um alivio imediato. Caí no chão esgotada, sem forças. Meus olhos o encaravam trêmulos de medo e pavor, minhas pernas vibravam sem forças para fugir . - Nunca mais poderá fugir do envolucro que te envolvi. Você será muito útil para nós!
     - Me deixe sair... por favor... - disse desfalecida.
     - Você agora me pertence! e a mim deve respeito.
     Fiquei sem reação. Tentei chorar, meus lábios tremiam de frio e medo.
     - Volte, e leve contigo o olho que te entreguei! Ele é o contato direto comigo, e através dele te prepararei, te ensinando sobre sua força e poder.
     Tentei dizer algo, mas o velho levantou o rosário me fazendo apagar totalmente. Senti novamente tudo girar. As risadas pareciam me circundar, rasgando minha pele a medida que tudo girava. Era uma dor que não era física, era uma angustia que me sugava até a ultima gota de energia.
     Despertei no corpo. Olhei desesperada para todas as direções. Não vi ninguém! O velho não estava mais ali. Forcei para levantar, mas senti tanta dor que gritei caindo no chão novamente. Debrucei sobre mim procurando me abraçar, apertando-me o máximo, tentando me dar forças em meio a tudo que estava acontecendo. Olhei para minhas mãos, elas estavam magras, frias... meus dedos tremiam, minhas unhas ranhentas estavam sujas de terra. Aquela não era eu! Eu não era esse monstro... A transformação era para ser positiva em minha vida, mas desde do momento que tudo começou eu só consegui atrair revoltas e coisas ruins. Meus olhos choravam, meus lábios derramavam saliva densa de desespero e medo. Minha respiração acelerada com o choro me deixa ainda mais nesse estado deplorável de ser. Fiquei ali, abraçada a mim mesma não sei por quanto tempo. Meu choro deplorável não me aliviava, ao contrario, me afundada com tantos sentimentos impróprios contra os princípios que minha mãe, a Danra Nahimana tanto presava. Eu estava definitivamente destruída. Abri meus olhos tentado enxergar a realidade do mundo, e entre vários galhos e pedra, enxerguei um seixo esbranquiçado... este se mexeu virando-se para mim. Aquele não era uma pedra, era o Olho!


continua...