sexta-feira, 30 de maio de 2014

Pagina 06 Os Olhos Amarelos

          Abri meus olhos, olhei para cima, e em meus pensamentos apenas incertezas do que presenciei na noite anterior. Meus olhos fixavam as palhas secas sobre mim enquanto eu vagava... O dia amanheceu já havia muito tempo e eu ainda estava aqui, mórbida, deitada na rede. Não vi a Danra minha mãe saindo, ou papai. Na verdade tudo estava muito silencioso. Estava frio e meu corpo tinha receio de levantar, toquei meus braços e os senti muito frio, "eu tinha que sair... levantar". Puxei meu corpo e levantei! Fiz o esforço do mundo e toquei o chão. Senti a areia fria tocando meus dedos.
          "Vou sair um pouco... caminhar..." Pensei.
          Saí da oca e percorri a aldeia sem rumo, vi Turandá em conversa animada com sua mãe, Laciara passando cabisbaixa e Saíra totalmente silenciosa. Ia falar com ela, mas desistir. Ela parecia pior que eu. Atravessei a aldeia e segui pela trilha que levava pro rio. A areia estava muito fria, ventava um pouco, olhei para cima e vi varias nuvens, algumas tapavam o sol por longos minutos, a floresta parecia envolta por uma sombra interminável que o sol não conseguia transpassar. Pensei em ir no rio pelo menos para caminhar, mas algo me chamou a atenção. Parei meio sem reação. Haviam rastros no chão... rastros de cobra, como se uma enorme tivesse cruzado por ali. Abaixei e os toquei."Preciso avisar alguém... mas quem?" Pensei. Enquanto observava os rastros eu lembrava das histórias que contavam para nós. Os velhos sábios sempre falaram de cobras gigantes que desciam do rio em épocas difíceis, algumas para se alimentarem do mal, outras aproveitavam a situação para se libertarem de suas prisões distantes. A voz gentil de Kananciuê reverberavam em meus pensamentos quando nos alertou de tempos difíceis, e pela primeira vez senti medo. Levantei e olhei adiante, Ouvi algumas vozes que vinham da trilha e me escondi nos arbustos.
          - Acho melhor não contar para ninguém sobre os rastros - disse Açuã a um outro jovem índio - poderão interpretar errado, você conhece meu pai...
         - Mas Açuã...
         - Confie em mim, -disse Açuã pondo uma mão no ombro do jovem índio - e vamos continuar procurando o Kambô para o Zuruahá!
         O índio consentiu e ambos seguiram falando até sumirem de vista.
         " eles também viram o rastro... " Pensei comigo, mas onde? Decidi seguir por onde eles vinham. Provavelmente estavam vindo do rio, então segui para lá. No caminho vi Ceci parada ao lado de Moara, ambas conversavam bastante concentradas, senti certo ciumes, pensei em ignorar, mas pensei melhor e fui até elas, talvez estejam falando sobre os rastros.
         Chegando, parei bem de frente a elas. E elas fizeram que nem me viram. Fiquei com ódio mortal, principalmente de Ceci que desde pequinininha era minha melhor amiga. Olhei bem na cara de Moara, se ela tivesse visto minha fisionomia teria corrido, mas ela não viu! Pareciam não me enxergar!
         - Oi Ceci! - Falei incisiva - TUDO BEM?!
         Ceci me olhou como se não estivesse nesse mundo. Senti um arrepio que subiu pelas minha costas quando me encarou, Moara virou-se para mim com um olhar superior, mas não como antes, estava diferente.
          - Vem aqui rapidinho Ceci... - falei puxando ela pelo braço.
          - O que aconteceu Natasha? - Perguntou Ceci sem paciência. - Não vê que eu estava...
          - O que você estava falando com ela? - interrompi de imediato - estou te estranhando Ceci, você nunca gostou de Moara...
         - Nunca gostei,  ou você nunca gostou que eu gostasse? - disse Ceci alterando o tom de voz. - Por favor Natasha, as coisas não estão e não serão como antes, e você ainda fica nesta mesquinharia... Muita coisa está acontecendo e você parece que não está percebendo nada,  fica presa nesse seu mundinho de orgulho e não vê que a sua volta o mundo está girando e se transformando...
        Enquanto Ceci falava minha cara ia caindo no chão. Sentia meu rosto queimar de vergonha, não sabia como me posicionar, e Ceci não parava de falar!
         -... Você prestou atenção na palestra de Kananciuê?  você  ao menos se deu o trabalho de...
        - CHEGA! CHEGAAA!!! - Urrei desequilibrada. - Eu só... - travei tentando achar uma justificativa  - Eu... Eu... Ah, quer saber? Vai lá ficar com sua amiguinha... vocês se merecem mesmo!!! E-eu ti-tinha uma coisa mu-muito importante pra te dizer, - gaguejei - mas vai lá ficar ela tá te esperando, VAI!
       E sai vermelha, as duas provavelmente estavam me olhando com o mesmo olhar de reprovação. Maldita Moara! Minha vontade era de voar nela!  Mas me contive, não sou como elas, nem como Ceci... Aquela... Aquela sem graça!
        A medida que eu resmungava pra mim mesma eu sumia na mata fechada, perdi a cabeça e se alguém falasse comigo eu EXPLODIRIA.
       Parei de trás de uma árvores, me encostei nela e sentei, procurei me contentar apenas nos cantos dos pássaros para ver se acalmava meus nervos. Mas nem isso parecia ajudar. A floresta parecia parada... estática! Quase não ouvia canto nem tão pouco o som das arvores se movendo com o vento. Tapei meu rosto com as mãos... aquela conversa me tirou de mim mesma, até minha respiração estava ofegante. Peguei uma pedrinha no chão e apertei, vi algumas veias se formando sobre a mão. " que raiva de Ceci, QUE RAIVA!" pensava eu enquanto apertava aquela pedra. Pra mim era a cabeça dela que eu apertava, e eu punha toda minha força até que ouvi um grito. Me assustei e levantei. voltei pra trilha e vi lá longe que Moara segurava Ceci nos braços, ela parecia desmaiada! Meu Corpo fez a menção de correr até lá, mas minhas pernas travaram. NÃO! Deixa ela lá, pensei. Deixe que sofra... virei de costas e sumi rumo ao rio. Minutos depois senti o friozinho das águas do rio me abraçando, eu não era louca de entrar, mas molhei meus pés... Peguei algumas pedrinhas e joguei no rio. Lembrei me de Ceci, joguei outras duas com mais força.
         " como ela pode ter me trocado por aquela... - parei enquanto digeria seu nome em minha boca  - aquela Moara!" fiquei ali resmungando não sei por quanto tempo, até que sai do rio e fiz mensão de voltar. Então parei... Olhei pro céu e pensei mil coisas... "como ela pode ter dito que eu não entendi o que o pajé disse? Como!? Eu é que não a vi pra contar, ma senti sim... " pensava enquanto caminhava. Senti uma vontade muito forte de entrar na mata e assim o fiz. Queria sumir! Andar sem rumo... ver ninguém! Andei por alguns minutos sem notar onde ia, saltei alguns troncos, atirei algumas pedras e quando dei por mim, estava na trilha que dava pra caverna que eu encontrei  e que ia mostrar a CECI!!! Quando percebi eu me assustei. Como fui parar ali? Eu nem me lembrava mais dela. Então congelei. Ouvi passos suaves um pouco mais a frente,  eu tinha que me esconder! Foi o meu primeiro pensamento, então ela surgiu... negra como a noite e com a boca ensanguentada... Eu quis correr e gritar, mas munhas pernas travaram. Uma onça negra estava ali, a alguns metros de mim, e sua boca ainda pingava sangue. Ela me olhou com aqueles olhos amarelos e sumiu na mata. Eu fiquei literalmente petrificada... parada... sem.reação! Um onça dessa é um perigo para todos da tribo! Eu tinha que avisar os caciques guerreiros, mas meus pés travaram! Eu então puxei o ar e enchi os pulmões, senti que aos poucos meus músculos voltavam ao normal. E assim foi, eles voltaram... girei para voltar, e ouvi uma voz, reconheci na hora... meus olhos se espremeram no exato momento... era a voz de Moara. " o que ela estava fazendo aqui?" Pensei espremendo um pouco mais meus olhos, eu tinha que saber...
         Segui a trilha enquanto ouvia um barulho de água sacudindo e a voz de Moara pronunciando algo que eu não entendia. Me escondi atrás de uma árvore e olhei tentando ver onde ela estava. Por sorte minhas mãos estavam seguras na árvore, mas minhas pernas barbearia como se instantaneamente sumissem os meus ossos. Moara estava abaixada na entrada da caverna, com uma bolsa de couro cheia de água presa a cintura, a onça estava deitada enquanto Moara lavava sua boca. Senti meu rosto esquentar, minha pele pinicar... Aquela maldita estava criando uma onça escondida de todos. Então tudo apagou, e eu caí inconsciente no chão.