segunda-feira, 2 de junho de 2014

Pagina 07 Despertando a consciência

         Senti meu corpo despencar, após isso tudo escureceu... De novo! Vi novamente a luz e o túnel, mas dessa vez havia algo a mais. Olhei fixamente na luz e vi que algo se movimentava em meio a ela, estava difícil de ver, pois minha vista estava embaçada, cocei varias vezes meus olhos e não melhorava por isso não identifiquei o que eram, pra mim eram duas pessoas. Fiquei contemplando-as até que meu corpo começou a se mover em direção à luz... Fui me aproximando e as silhuetas iam ser mostrando cada vez mais nítidas. A cada centímetros que me aproximava sentia que meu corpo adormecia mais e mais, olhei para meus pés e eles pareciam mortos, eu não os conseguia mexer!! Olhei para novamente para as silhuetas e senti um calafrio arranhar minhas costas. Não sei quem ou o que eram, mas definitivamente eram mais altos que qualquer homem que tenha visto. A essas horas não conseguia enxergar mais nada, tudo se tornou um breu branco e silencioso, sentia apenas suas mãos tocando como se analisassem em meu corpo, e eu não conseguia nem gritar nem chorar... Fiquei assim por um tempo que eu não entendia. De repente tudo escureceu...
         - Natasha... Natasha! - Chamava me uma voz familiar, era Saíra. - Acorde!
         Saíra me sacudia enquanto me chamava, aos poucos fui voltando ao normal. Abri meus olhos e tive dificuldade em enxergar, apenas a voz de Saíra e alguns murmúrios me mostrava que eu ainda estava viva. Tateei o ar tentando acha-lá, segurei seu braço frio e me apoiei para levantar.
         - O que está acontecendo? - Perguntei. - Que escuridão é essa? Aos poucos minhas vistas iam voltando ao normal e eu fui conseguindo definir formas em meio aquela penumbra.
         Saíra consertou o corpo e disse baixo:
         - Açuã te encontrou caída na floresta, e te trouxe pra cá.
         - Mas onde eu estou? - Perguntei tentando identificar o lugar. - Por que estamos aqui?
         Saíra calou-se, não vi seu rosto, mas senti que chorava em silêncio.
         - Saíra, fale logo o que está acontecendo! - Gritei enérgica.
          Houve um segundo de silencio...
         - Tuíra... - disse ela parando novamente, houve outra pequena pausa - ele foi morto... - Sua voz estava embargada.
         - Seu irmão?
         - Sim...
         - Mas como Saíra? - Perguntei me sentindo incomodada pela demora das respostas.
         - Foi encon... - Saíra calou-se e começou a chorar, senti uma dor no peito e me senti muito mal e sem graça. "O que falar para ela?" Pensei... Toquei então seus braços que estavam frios e a abracei.
         - Nossa... - Foi a única coisa que consegui falar.
         - Ele foi morto, - disse ela por fim com a voz grave e obscura. - Foi encontrado morto... - Parou por um outro segundo - próximo ao rio, - houve outra pausa, senti a força que ela fazia para me contar o que aconteceu.  Senti pena e desconforto, ela continuou - Ele estava com as pernas quebradas e todo ensanguentado...
         " ensanguentado?" Pensei tentando ver seu rosto na penumbra. Ouvir aquilo me fez arder! Lembrei me do que vi, da onça, de sua boca ensanguentada e DE MOARA TENTANDO CAMUFLA-LA LIMPANDO-A!!! Larguei Saíra de imediato e sumi na penumbra. Estava fervendo!!! Me sentia culpada por aquilo! EU A VI COM A ONÇA!! Eu poderia ter contado a todos, e essa tragédia não teria acontecido! Mas... Mas... - Pensei em Ceci - ela estava certa, alguma coisa está acontecendo e eu... E eu só desmaio! SÓ DESMAIO!!! - Urrei em meus próprios pensamentos.
          - Natasha - chamou-me Saíra se aproximando - não fique assim, precisamos superar isso...
          - Saíra - falei - você não entende... Eu vi...
          - Não importa o que você viu - respondeu-me ela me interrompendo de imediato - agora é tarde, aconteceu...
          - Saíra, você não entende.
          - Lembre-se de que Kananciuê disse, os tempos são difíceis Natasha, e eles estão ai, tocando cada uma de nós e quem somos nós diante do que estar por vir.
          Paralisei! Ouvir Saíra dizer aquilo foi como se eu tivesse levado uma flechada que atravessasse meu peito. Como que até ela que eu julgava ser apenas mais uma, estava agora me dando, ME DANDO UMA LIÇÃO DESSAS!? Fixei meus olhos em Saíra, mas via Ceci, com aqueles olhos meigos me encarando e me reprovando. Esfreguei meus olhos... Saíra já tinha terminado de falar, meu peito arfava de desconforto e raiva. Ergui minha cabeça e a vi cabisbaixa em meio a penumbra, provavelmente chorando. Eu tinha que contar que foi Moara, que ela criava uma onça que matou seu irmão, EU TINHA QUE CONTAR!!! Mas não consegui...
           Dei um abraço em Saíra e sumi em meio aquele oca escura, queria ficar só. Minha mente só aparecia alguém: Moara,  MOARA! Eu tinha que desmascara-la, tinha que bolar algo, mas o que?
          Olhei ao redor tentando achar uma ideia, meus olhos percorriam cada fresta nas palhas da oca, olhei para a entrada e vi que havia dois grandes caciques em pé com os braços cruzados. Parei, achei estranho. Por que? Olhei ao redor, agora com mais consciência e vi que ali havia apenas meninas, todas da aldeia, e todas mais ou menos da minha idade, algumas choravam outras trancavam a cara nos cantos. O que é isso? Pensei. Estamos presas? Levantei e fui até o cacique, tentei passar como se eles não estivessem la. Fui barrada e empurrada para trás. Caí e os xinguei. Saíra veio e me ajudou a se levantar!
          - O que está acontecendo? - Perguntei totalmente fora de mim.
          - Calma Natasha, estamos sobre observação, apenas isso.
          - Observação? Do que? E POR QUE?
          Olhei ao redor tentando identificar todas as índias.
          - E por que só nós? - Perguntei enfurecida - cadê Moara? Por que ela não está aqui!? Cadê Ceci?
          - Calma Natasha, não aja dessa forma...
          - E como você quer que eu fique? - Perguntei com certa ironia. - Meu pai, cadê meu pai? VOCÊ  SABE QUEM É MEU PAI!? - Urrei pra ela, estava descontrolada. Não gosto de me sentir presa, NÃO GOSTO!!! Eu não fiz nada, e quem fez não está aqui!!! Vocês não entendem! - Urrei pra todos os cantos.
          Senti uma leve brisa tocando-me como que abraçasse-me, ouvi um zumbido agudo e perdi metade da minha consciência, em seguida alguém falou comigo.
         - Filha, acalme te o coração...
         "Kananciuê?" Pensei.
         - Ninguém a está prendendo, - disse ele com a voz terna e gentil de sempre - tu és livre para escolher o caminho que quiseres percorrer...
         Eu ouvia a voz de Kananciue e sentia transbordar novamente aquela energia indescritível percorrendo meu corpo, sua voz não batia em minha mente, era como que acariciasse meu ser, minha alma, era algo impossível de traduzir. E eu estava ali... semi consciente, com Saíra ao meu lado, ouvindo o que ambos me diziam e discernindo cada palavra.
         -... Filha, - disse kananciue - tu só estas aí para que tenhas uma condição especial nessa transição que estas acontecendo. Eu mesmo a escolhi entre todos que a recusou. Eu mesmo a quiz aí...
        - Natasha, - dizia Saíra- eu também não sei por que estou aqui, mas eu sinto que e para algo melhor, por isso peco a você que se tranquilize...
        - Mas essa decisão e sua filha... somente você poderá traçar seu caminho...
        - Eu vou ficar - respondi de súbito, vou honrar sua confiança.
        Saíra me olhou com os olhos assustados.
        - O que? - Me perguntou Saíra.
        Fiquei em silencio, pensei muito, entristeci-me comigo mesmo. Queria ficar só, esperando por algo que eu não sabia o que era, mas teria a partir daquele momento paciência para esperar.
        Kananciuê já havia ido em seus mistérios, agora estava apenas eu e Saíra, me deixando com aquela sensação de que algo muito sério me esperava... Respondi a pergunta de Saíra e sumi, indo pros fundos da oca, onde a penumbra se concentrava. Queria ficar só... Apenas sentindo essa energia intensa que inundava todo o meu coração.