terça-feira, 3 de junho de 2014

Pagina 08 O grande Pajé

          As horas iam passando e por mais que eu tentasse ou disfarça-se estava me sentindo agoniada. As horas ali dentro pareciam paradas, as meninas andavam sem rumo dentro da oca escura e eu as observava do meu canto, sem nada falar, mas com a cabeça a mil. Virei-me para as palhas secas e abri uma fresta, precisava olhar se havia algum movimento do lado de fora. Nada. Tudo estava parado, estático. Consegui olhar um pedacinho do céu, estava com algumas nuvens, nada mais eu pude ver. Fechei a fresta. Passei os olhos tentando ver onde estava Saíra e a vi deitada no chão, parecia calma e serena. Pensei em ir até ela, pedir desculpas... essas coisas, mas não fui. Parei. Não ia fazer isso... Aos poucos o silencio e a penumbra foi me lenteando, não sei quanto tempo fiquei em pé, mas minhas pernas começavam a doer, Sentei. Cruzei as pernas e me encostei nas palhas. Olhei para frente e vi que algumas das índias deitavam no chão, uma ou outra estavam em pé. Minha cabeça àquelas horas estava meio que em câmera lenta, estava me sentindo zonza, minhas pálpebras pesaram, fazia o esforço do mundo para ergue-las. Olhei pra Saira e a vi dormindo, olhei para as demais e quase todas dormiam profundamente. Deve ser o cansaço, pensei. E me entreguei ao sono profundo.
          Olhei em volta e percebi que assim que fechei meus olhos do corpo eu abri os olhos da alma. Levei um susto, pois não reconheci o lugar. Pus as mão no peito e senti meu coração batendo normalmente, dei-me um pequeno beliscão e senti a dorzinha normal. O que é isso? Pensei. Estava dormindo? Até aquele momento eu não sabia. Fui então tentar descobrir. O lugar era diferente, mas era tão escuro quanto a oca em que estava meu corpo. Fui tateando as paredes do lugar e as senti úmidas e frias, arrastei o pé no chão e percebi que era feito do mesmo material que as paredes. Girei meu corpo para melhor ter a visão do lugar e lá na frente pude ver um fecho de luz que vinha do alto tocando o chão, era lindo. Como um véu de prata em meio a toda essa escuridão.
Caminhei até ele. O estranho era que mesmo o lugar sendo escuro eu caminhava com total segurança, achei isso muito estranho! E continuei.
         Aos poucos o fecho de luz ia se mostrando maior e maior, pude perceber que ele iluminava uma espécie de altar. E como estava mais próximo dele pude notar melhor o ambiente. Era uma caverna, e esta era enorme e profunda. O feche de luz iluminava exatamente o centro de um salão cimentado por rochas milenares. O estranho foi que esse lugar parecia familiar para mim... Porquê? Olhei em volta para me situar melhor e vi algumas silhuetas sentadas e ouvir alguns murmúrios. Senti profunda vontade de me aproximar delas e assim o fiz. Caminhei confiante pelo grande salão de pedras e sentei-me. Para o que eu não sabia, mas ali eu estava. Fiquei parada não soube por quanto tempo, mas o tempo suficiente para reconhecer aquelas silhuetas. Eram as índias que estava dormindo na oca, TODAS! Inclusive Saíra, que estava sentada a uma certa distancia de mim, ela não me encarava, parecia absorta pelo o que estava lhe acontecendo. Ouvi então pés se arrastando na penumbra atras de nós, olhei curiosa e vi mais outra índia chegando. Pude sentir o ar de profunda curiosidade em seu semblante, a pequena sentou lá atras, um pouco distante de nós. Pelo jeito ela não nos reconheceu. Na verdade todas pareciam meio abobalhadas, meio zumbis, eu não entendia o porque de somente eu parecer estar tão desperta. Senti então em meu íntimo que alguém havia chegado, não era definitivamente uma outra índia, era alguém com uma emanação diferente. Olhei de súbito para o feche de luz e vi com clareza um corpo se fazendo da luz emanada do céu, como se ali fosse uma porta e esse ser acabasse de entrar. Rapidamente todas se empertigaram, abriram mais seus olhos inclusive eu, e assim a luz se fez gente.
Logo pude ver quem era, senti emanar da luz uma essência suave e delicada que eu ainda não havia identificado. Não era Kananciuê, e sim o pajé Yakecan. Todas curvaram-se em respeito ao grande homem a frente, inclusive eu. Yakecan trajava roupagem nobre, clara como a luz que emanava, seus cabelos brancos estavam soltos e meneavam suaves como se houvessem vida própria, seu olhar não era o mesmo que eu conhecia, estava altivo, mais sábio, mais além do que eu poderia compreender. Senti, em meu intimo, a falta de Kananciuê, fiquei na expectativa dele aparecer, mas não apareceu. Yakecan então falou:
          - Sejam bem vindas - dizia olhando para cada uma de nós - pequenas gotas do amor incondicional do nosso grande Deus sobre todos. Hoje começa nosso grande trabalho. Entraram nessa caverna e dela não sairão as mesmas... Olho para vocês e vejo a imagens das jovens Danras de hoje, ansiosas, temerosas ontem e grandes e sabias hoje... - parou fixando olhar em algumas de nós - A vida de vós não mais será a mesma na qual estavam destinadas a ser, será melhor! Um novo mundo se descortinará para vós, trazendo novas melodias universais, novas esperanças para esse mundo que escurece a cada raiar de sol. Minhas filhas, sois escolhidas a dedo dentre tantas de nosso povo, não por serem melhores, mas por terem em suas almas grandes sabedorias e conhecimentos... sabedoria essa que saberão de onde vem com o tempo certo. - Yakecan parou por um segundo, todas nós parecíamos congeladas por suas palavras sinceras e de profundo amor e conhecimento, ele nos encarava como um pai encara seus filhos, tinha a idade da Terra e a ternura de um broto de rosa, seus olhos singulares fitava-nos com profundo respeito e carinho, ele continuou:
          - Erga suas mentes para o que é prospero e eterno, não se percam nas mesquinharias desse mundo que é banal e passageiro, conhecerás aqui o significado do que é ser eterno e eterno serás, a luz que emana nessa hora aqui de mim é a mesma luz que cada um desse mundo possui, mas todos se encontram ainda dormindo em suas consciências, e vós terão que acordar, que despertar, para dar luz aos cegos e amor aos desesperançados. Vamos filhas, vamos permitir que a mudança ocorra de dentro para fora, por que assim quer seu pai o Soberano sobre nós que é puro amor, pura paz e conhecimento. Conhecerão o passado e o futuro desse mundo de mistérios e assim sendo conhecerão a luz e a treva em seu coração. Sinto-me feliz por estarem aqui, dentro dessa caverna onde grandes seres desceram para ensinar, e assim como estão ai sentadas digo que ontem era eu, cheio de duvidas e incertezas. Acreditem filhas de meu coração e tudo lhe serás dado...
          Yakecan terminava de falar e suas vestes e pele iam se confundindo novamente com a luz que descia do céu. Logo o grande índio não pode ser mais visto nem escultado. Nossos corações transbordavam de pura felicidade e alegria, sentimentos esses que vem me enchendo abrindo meus olhos para novas perspectivas. Fechei então meus olhos da alma e em seguida abri os olhos do corpo. Senti minhas pálpebras fecharem, pois já era dia e a luz do sol quase me cegara. Notei que as pequenas índias assim como eu iam despertando uma a uma. Senti que a partir daquela noite, nunca mais eu seria a mesma...