quarta-feira, 4 de junho de 2014

Pagina 09 Lembranças e Surpresas

          Saí da oca me sentindo meio abobalhada. Parecia que o céu estava mais brilhante e as cores mais vivas. Eu fui a ultima a sair, os caciques que seguravam a entrada desapareceram, não os vi mais. Caminhei entre todos da aldeia como que hipnotizada, que sensação estranha! Pensei. A unica coisa que vinha a minha cabeça era procurar por minha mãe, a Danra. Então segui para nossa oca que era mais afastada do centro da aldeia. Caminhei alguns minutos e a adentrei, logo de cara não a encontrei, sai e dei uma volta ao redor da oca e não vi nem ela nem papai. Aquelas horas eu não tinha animo nem para esganiçar raiva ou praguejar algo. Fui então em direção ao rio. Caminhei, cruzei com alguns índios, mas estranhamente não vi nenhuma das índias que estavam comigo ontem a noite. Continuei seguindo. Saí da aldeia, e segui pela Saraboya, que era a trilha que dava para o rio. Novamente encontrei alguns outros índios costumeiros, eles olhavam para mim com ar de profunda observação, e eu passei direto por eles sem ao menos olhar-lhes a cara. Logo senti o friozinho que arrepiou meus braços, estava bem próximo do rio, faltava fazer uma pequena curva pela trilha e lá estava ele... lindo a me esperar. E não deu outra, logo mergulhei em suas ondinhas frias e escura. Ali fiquei apenas pensando no episodio de ontem a noite, cada detalhe que ficara em minha mente. Os olhos de Yakecan era o que mais me chamava a atenção, estava tão diferentes dos que eu costumava ver... Puxei o ar novamente e mergulhei, queria ir até o fundo do rio, sentir aquela areiinha e puxar um pequeno maço de terra comigo. Não consegui... subi e puxei novamente o ar. Antes de mergulhar novamente ouvi um farfalhar numa moita as margens do rio. Assustei... mergulhei meus corpo deixando apenas meus olhos e nariz para fora... nada aconteceu. fiquei assim por alguns minutos, e nada. Me tranquilizei... lembrei-me da onça que vi, logo me veio o rosto de Moara, meu coração se contorceu. Mergulhei!
          Lá embaixo puxei o maço de areia que eu queria, mas ele se desfez antes mesmo de eu voltar a superfície. Subi feito um raio descontrolado, minha cabeça já reverberava: Moara... MOARA!!!  Por que eu sinto tanta raiva dela? Fiquei pensando enquanto puxava ar... Ouvi novamente a moita balançar, virei-me e vi um vulto sumindo por de trás de uma arvore, arreganhei os olhos, meu coração foi a boca, eu quase engasguei, pois afundei um pouco... nadei um pouco tentando me afastar da moita, estava indo a outra margem, ia ficar lá parada esperando e olhando, mas pensei melhor... fiquei no rio.
          Minhas pernas meneavam nas águas profundas e escuras, meu corpo aos poucos ia esfriando e meus olhos fixos estavam naquela moita... fiquei a observando sem nem ligar para o que acontecia ao redor, vez ou outra surgia alguém que entrava no rio e saía, mas eu ficava lá... apenas observando. O sol já batia o centro do céu, olhei para cima e vi algumas nuvens deslizando suave e despreocupadas. De fato estava um dia muito tranquilo. Àquelas horas fiquei pensando que nada mais aconteceria e decidi sair, fui meio corajosa e segui rumo a moita, saí do rio e passei ao lado dela. Nada aconteceu... naquele momento ouvi outro som, mas dessa vez era o de minha barriga, estava faminta. Precisava comer. Caminhei um pouquinho enquanto espremia meus cabelos, alguns fios ficaram em minhas mãos, eu os soltei no chão enquanto andava. Saí da Saraboya e entrei na mata fechada, precisava encontrar algo para comer. Vi algumas arvores enormes, alguns coqueiros, butiás, mirtilos, sapucaias, mas o que mais me chamou a atenção foi os pés de pitangas, e estavam carregados, havia alguns pés de goiaba também... aquela tarde eu me esbaldei. Comi e me senti pesada, sentei-me um pouco para descansar. Essa pausa me fez lembrar novamente do ocorrido ontem a noite, lembrei-me então de Saíra, onde ela estava? pensei. Por um momento todo o cenário a minha volta se apagou, eu voltei a viver as palavras de Yakecan, eram lindas e deixaram marcas profundas em mim. Queria passar mais tempo ali, ouvindo, sentindo aquele mundo estranho, aquelas sensações na qual eu não conseguia traduzir, lembrei dos olhos das índias, do jeito que ouviam, das poucas lágrimas que algumas deixavam cair, de Saíra... Saíra?... onde estaria Saíra?... e Ceci? Precisava procura-las, agora me sentia mais forte, menos grogue, mas consciente. Aos poucos minha memoria se tornou branca e o cenário a minha volta verde e vivo. Abri meus olhos e vi um vulto negro me observando. Congelei literalmente! Quando dei por mim estava em pé. Procurei com toda pressa do mundo uma pedra ou um pau para me defender, mas não achei. Olhei para a silhueta escura e ela não sumiu, estava ali... parada, me olhando, tinha os olhos amarelos. Não achei pedra alguma e saí correndo. Não sei em quantos minutos cheguei na aldeia só sei que quando cheguei nada eu vi... tudo revirou. Tudo se tornou sombrio, turvo. Caí desmaiada... novamente!