sexta-feira, 6 de junho de 2014

Pagina 10 Entre dois mundos

          Sabe aquela sensação de quando você fica submerso na água por um bom tempo e de repente você emerge puxando todo ar do mundo e na maior agonia e no maior desespero? Pois é... essa fui eu quando desmaiei! Parecia que estava afogando e explodi de repente abrindo a boca, os olhos e debatendo pernas e braços. Foi horrível!!!!
          "Me recuso a desmaiar de novo! ME RECUSO!!!" Dizia para mim mesma enquanto pessoas vinham tentar me acalmar. Eu definitivamente estava possessa, transbordando ódio, raiva, agonia. Sabe aquela sensação quando você ver as pessoas, mas não as ver? Tinha um monte me segurando, todas eu conhecia muito bem, mas ao mesmo tempo minha raiva e inconformidade me impedia de "vê-las". Foi horrível, é a unica coisa que consigo dizer agora... HORRÍVEL!
          Aos poucos o tempo ia passando e eu ia me acalmando, as meninas que me seguravam com força aos poucos iam afrouxando as mãos. Eu, agora, ia criando consciência de onde eu estava. Tudo o que eu via era o breu e a penumbra. Ergui minha cabeça um pouco e vi o cenário: Estava novamente na oca de ontem a noite. Os mesmos caciques estavam protegendo a entrada. Olhei com desdem esganiçando o olhar para cima e relaxei: Que saco! Ouvi uma risadinha vinda de algum lugar. Deixei pra lá. Saíra veio ter comigo e apoiou minha cabeça em suas pernas, pegou seus dedinhos finos e começou a pentear meus cabelos. Relaxei novamente meu corpo e a medida que via seu rosto de cabeça para baixo ia querendo adormecer... Pernas, braços, dedos, TUDO ia adormecendo. Senti a mesma sensação do desmaio. Dei um grito! Repreendi na hora e despertei novamente. Todas me olharam ansiosas, como se esperassem que algo fosse acontecer. Ouvi novamente a risadinha. Dessa vez olhei ao redor, pois a voz era masculina, e os únicos homens aqui dentro eram os dois caciques, e esses pareciam dormir em pé!
          - Saíra eu estou enlouquecendo? - Perguntei levantando o corpo do chão.
          - Você está cansada - respondeu-me ela - só isso. Não tem sido fácil pra ninguém aqui Natasha, todas estão passando por seus testes, por suas próprias dores...
          - Estou ouvindo vozes - disse olhando desconfiada a penumbra que mais parecia um véu negro nos cobrindo - isso não pode ser normal! E esses desmaios?
          - Fique calma Natasha... - respondeu-me ela.
          "Faz parte de sua preparação filha..." Falou-me a voz novamente. Eu dei um salto que quase joguei Saíra para trás.
          - QUEM ESTÁ AI?! - Urrei aos pulmões.
           Saíra levantou-se com os olhos que pareciam querer cobrir a face inteira, os Caciques me olharam e se entre olharam sem nada dizer.
          - Na-Natasha, - gaguejou ela - fique calma...!
          - COMO FICAR CALMA?! - Abrutalhei de vez - EU QUERO SAIR DAQUI!!
          Novamente ouvir uma risadinha suave.
          - QUEM ESTÁ RINDO DE MIM!? - Urrei. Eu girava na penumbra feito um pião descontrolado tentando ver quem falava comigo. - Não é possível que vocês não estejam ouvindo!!!
          "Fique calma minha filha... disse lentamente a voz suave lembre-se, vocês estão ai para serem observadas e ensinadas..."
          - Natasha - disse Saíra se aproximando - venha, deite-se um pouco.
          "Yakecan foi muito seguro quando disse que estavam sendo preparadas não foi?"
          - Isso, - disse Saíra enquanto eu me abaixava em suas pernas - agora fique calma... - Saíra voltou a acariciar meus cabelos a fim de me acalmar...
          - Eu devo estar ficando louca mesmo. Pensei estupefada. Estou ouvindo vozes!!!
          Eu ouvia a voz de Kananciuê simultaneamente a voz de Saíra, eu tinha a consciência total dos dois, era estranho isso! Eu não entendia!!!
          "Estamos preparando vocês para uma futura iniciação filha... todo esse desajuste em seu corpo físico é normal até que as energias se acentuem e equilibrem nos reinos de vossa natureza, por isso insisto, fique calma..."
          - Eu venho tendo vários pesadelos Natasha - disse Saíra com a voz profunda em memórias - Antes de meu irmão morrer, tive um sonho com ele, vi uma cobra enorme rondando a aldeia e ele ia tentar nos proteger, mas ela no final o enrolava e o matava...
         "Consegue perceber? Perguntou Kananciuê cada um passa por sua estrada de forma diferenciada, mas todas as estradas levam a perfeição de vossas almas, de vossos ser, procure aprender com o que ouvir filha, julgue menos e ouça mais..."
          Saíra tapava o rosto tentando esconder as lagrimas, olhei para ela e senti pena... o que eu poderia falar? O que eu poderia fazer? Abraçar? Acariciar? O que? Nunca fui boa nessas coisas! Nunca precisei ser gentil com ninguém, mas agora eu a vejo ali, a minha frente, precisando de uma palavra e minha boca estava fechada, seca...
          "Siga seu coração filha, deixe que ele fale por você... Ouvir a voz do coração é evolução espiritual... se permita evoluir filha... acredite em você...
          - Saíra... - Falei quase congelando por dentro. Ela me olhou e vi suas lagrimas refletindo a cor prateada em seus olhos. Senti um forte aperto. - Eu sinto muito...
          Saíra me olhou e se entregou. Chorou, chorou muito. Era como um desabafo, uma válvula que se abrira para expulsar sentimentos profundos, eu a abracei apertando-a em meus braços enquanto dizia palavras que meu coração começava a aprender. Ambas choraram, eu e ela, até o momento de cada uma consolar a outra. Novamente ouvi a risadinha, agora eu sabia que era de Kananciuê, ele estranhamente estava me observando. Por que será? Por que ele me escolheu? O conselho dos velhos sábios me reprovara, mas ele pôs a mão, queria que eu estivesse ali...  mas por quê? Perguntas essas que talvez nunca saiba a resposta. Também não queria perguntar. Queria apenas estar ali, com pessoas do bem, aprendendo também a ser do bem... senti naquela noite que minha vida a muito não era mais a mesma...