sábado, 7 de junho de 2014

Pagina 11 O amor de Yakecan

         Eu ainda ouvia os suspiros de Saíra, mesmo algumas horas depois de termos conversado. Após fato ocorrido, não ouvi mais os risinhos de Kananciuê. Procurei então me distanciar um pouco das meninas, queria eu agora cultivar minhas próprias lágrimas, minhas dores... Será que cada uma estava passando por algo assim como eu? Se sim, o que sentiam? Será que eram dores ou dúvidas? Eram mais leves ou mais pesadas que as minhas? Acho que nunca irei saber, também nem vou perguntar...
          Levantei e segui procurando um canto que fosse escuro ou que pelo menos me cobrisse, queria ficar definitivamente sozinha! Havia algumas meninas sentadas, outras em pé conversando desconfiadas. Outras olhavam pra mim com aquele jeito que não gostava, como se desconfiassem de algo. Torci meu nariz pra elas e segui. Eu caminhava eu sentindo meus pés descalços, estranhamente parecia que caminhava sobre algo macio, como que alisando aquele chão frio de areia bem pisada, era reconfortante apesar do frio. O tempo ia segundo e a cada minuto que passava sentia que mais se esfriava, eu sentia isso, mas meu corpo estava quente. Sentia a brisa entrar pelas frestas das folhas secas e apesar do frio sentia calor, um estranho calor. Fui caminhando até encontrar o lugar mais escuro, e achei. Estava lá no fundo onde não tinha uma viva alma. Segui aliviada.
          Chegando, senti meu corpo sendo abraçado pela penumbra, como se houvessem braços escuros me esperando. Senti um forte calafrio, daqueles que te faz arrepiar da cabeça aos pés... Me abracei! E devagarinho fui me abaixando, me colocando de uma forma confortável...  curtindo minha a solidão... quando então ouvi um: cof cof cof... Alguém estava aqui também!!! De cara torci os cantos dos lábios... Queria ficar só! Que coisa! Pensei... Olhei ao redor tentando identificar quem estava ali e vi uma índia mirradinha, um pouco menor que eu, abraçada em suas próprias pernas como se.quisesse se esquentar. Fiquei por alguns segundos fitando a pobre infeliz... Dentro de mim eu a contorcia em meus pensamentos, se ela pudesse ver minha cara sairia correndo, certamente...
          Pigarreei para ver se ela ao menos me olhava, e nada. Ergui minha cabeça para ver se havia algum outro lugar, mas logo desanimei. As índias se espalharam pela oca toda afim de dormirem no chão. Havia pouquíssimas em pé. Funguei logo desalentada! E recostei vencida minha cabeça nas palhagens.
          "e agora o que será de nós?" Pensei imaginando mil coisas. Olhei para os caciques na entrada e notei que eles conversavam entre eles, ergui as sobrancelhas surpresa, e fiquei observando. De onde eles estavam, na minha visão, pareciam crianças pequenas e bem distantes. Fiquei assim por um bom tempo, apenas observando enquanto minha mente vagava em mil perguntas sem respostas. Aquela cena, junto ao silêncio sepulcral, foi fazendo minhas pálpebras pesarem, fui sentindo o corpo relaxando, quase ao ponto da dormência. Eu estava quase dormindo enquanto os observava. Eles conversavam numa agitação crescente, como se discutissem algo entre murmúrios... Vi então que alguém se aproximou por trás deles, minha vista estava tão turva que nem identifiquei quem era ou se eu estava imaginando algo. Mas me parecia uma mulher, uma india... Continuei olhando... Senti naquela hora uma forte saudade de minha mãe, a Danra. Um furtiva lágrima desceu desenhando meu rosto enquanto minha respiração ia tornando-se cada vez mais pesada e lenta, não queria dormir...! Pensava enquanto tentava focar a vista. Quem estaria lá? Pensei. Fiz um último esforço para ver com um pouco mais de nitidez e consegui formar melhor a silhueta em minha mente. Aqueles cabelos, aquela altura, aquela... Aquela sensualidade natural somente uma pessoa nessa aldeia poderia ter... Meus olhos queriam se espremer, a chama no peito quiz se acender, mas foi tarde de mais! Caí em sono profundo. Fechei meus olhos...
          Assim que os olhos do corpo se fecharam os olhos da alma se abriram. Acordei do outro lado xingando e xingando Moara! A raiva que não consegui sentir no corpo transbordava agora em meu íntimo, e parecia fluir com muito mais intensidade... Olhei ao redor tentando me localizar e reconheci na hora as paredes de pedra e o ar úmido de antes. Estava na mesma caverna de antes. Parei para refletir, não podia sentir essa raiva toda, não aqui! TINHA QUE ME CONTROLAR!!! Tentei respirando fundo e pausadamente. Olhei o ambiente enquanto buscava o auto controle, girei meu corpo e vi o mesmo fecho de luz descendo do alto e lááá longe... Sabia que tinha que ir para lá, e fui. Caminhei sem tatear nada, como da última vez. Eu seguia como se já conhecesse o lugar, e a medida que me aproximava da luz mais calma eu ia ficando... Logo eu estava com outro semblante, sorridente e bobamente feliz. Vi as meninas sentadas em volta ao altar iluminado, percebi que todas estavam meio congeladas, paradas, pois não se mexiam. Pareciam dormir acordada... Mas enfim... Me sentei... Cruzei as penas e esperei...
          O tempo foi se passando e o silêncio parecia me consumir, até que ouvi barulhos próximo, como de pés se arrastando. Olhei em volta e vi a índia que estava escondida perto de mim se aproximando, ela provavelmente havia dormido o corpo mais tarde que as demais. Na ocasião ela parecia meio angustiada, o que será que ela sentia? Foi logo a primeira coisa que pensei... E a pobrezinha sentou se muito longe de mim. Naquele momento algo se acendeu a nossa frente, vi pelo canto do olho... alguém havia chegado! Olhei para o altar e vi com clareza a luz se tornando gente... Era Yakecan! Estava lindo e altivo, com as mesmas vestes que parecia reluzir luz viva aos meus olhos. Me encantei... Aquilo era realmente lindo!

          - Boa noite filhas queridas... - Disse com a mesma voz tenra e gentil de sempre - hoje iremos aprender um pouco mais sobre o princípio da vida, sobre o poder que cada uma de voz tem dentro de si, para que comecem a despertar para possibilidades infinitas de cada ser...
          Yakecan falava e eu notava que as meninas não esboçavam reação alguma. Como podia?! Elas não estavam ouvindo? Estavam dormindo acordada? Todas estavam petrificadas e sem reação, me indignei.
         - Somos todos, nesse mundo imenso, pequenas fagulhas do amor incomensurável da grande sabedoria. - parou por um segundo olhando cada uma de nós - Cada um de nós temos acesso a esse poder infinito, mas nem todos conseguem despertar esse conhecimento... Olho par vocês e vejo que ainda dormem ao contrário de seus corpos que quando estão neles estão acordados. Tens em vossas vidas que despertar para se ter a consciência de abrir essa porta que da acesso ao impossível...
          Então é isso... estão todas dormindo!!! Pensei estupefata. Mas como pode ser? Me perguntei. Se as vejo todas aparentemente com os olhos bem abertos... E eu... Por que estou, ou pareço acordada? Me belisque forte, quase dei um grito. Me contive sem graça e voltei a prestar atenção no que Yakecan dizia.
         - Cada vez que vêem aqui é como se uma fresta se abrisse em suas mentes... Reforce essa vontade crescente de evolução, queiram abrir essa porta e atravessar... Saibam que não serei eu que o fará por vocês e sim vocês mesmas , pois só assim saberei quem está preparada para as grandes energias que estão chegando. E o mérito seras todo seus, pelo esforço... - parou novamente e olhou piedoso para nós - Nosso tempo aqui é curto, por isso estou correndo contra o tempo para tentar despertar o maximo de vós outros, mas volto a dizer, o esforço maior tem que vir de vossas próprias vontades. Queiram acordar! Queiram evoluir... precisarei de vós para disseminar essas novas forças que estão chegando...
          Então eu sou a única desperta? Senti uma mistura de excitação e medo. Não é possível!!! Olhei tentando achar Saíra, será que até ela estaria dormindo? NÃO É POSSÍVEL!!! Procurei e achei... Saíra estava do outro lado, petrificada como as demais... Olhei ao redor e ouvi um pequeno fungado, me assustei... Olhei tentando identificar de onde vinha e notei que uma das índias havia despertado... E ERA JUSTO A INDIA RAQUÍTICA QUE CHEGARA POR ÚLTIMO!!!! Fique feliz, muito feliz por ela!!! Que estranha felicidade é essa que da vontade de você ir abraçar uma pessoa sem ao menos conhecer? Me contive quieta... Meus olhos diziam por si só a felicidade que eu sentia refletida nas lágrimas que desciam.
          - Hoje quando acordarem em vossos corpos físicos sentiram no âmago de vocês uma estranha sensação, algumas poderão achar que estão passando mal... mas não se assustem, pois estamos acentuando cada vez mais as energias para que despertem o mais rápido possivel... - Yakecan deu uma pausa e contemplou silencioso todas as pequenas índias sentadas, como um pai carinhoso que espera que seu filho de seu primeiro passo - filhas queridas de meu coração, sinto-me muito feliz por estarem aqui, mesmo que na situação que por hora se encontram... queria eu ser pequeno como um grão de areia apenas para adentrar em vossos corações afim de tirar suas chagas, dores e incertezas, mas infelizmente não posso... mas seguirei firme no nosso proposito, pois de vós muito é esperado... e eu me despeço aqui, deixando em vós uma gota desse amor que trago de mundos distantes, para acariciar-lhes o coração para a evolução que terás que passar... com carinho seu pai...
         Yakecan disse suas ultimas palavras, meu rosto se derretia com tanta doçura e amor. Eu queria derreter vergonhosa diante do que ele emanava. Me sentia a menor das menores, a mais terrível, a menos capacitada, mas de alguma forma eu estava ali, sentada... DESPERTA! e feliz... Num piscar de olhos senti que tudo girou e tudo se escureu. Fechei novamente os olhos da alma e abri simultaneamente os olhos de meu corpo físico. As lagrimas ainda estavam lá, pois eu as senti descendo por meu rosto...