segunda-feira, 9 de junho de 2014

Pagina 12 Preto no Branco

          Abri meus olhos físicos com algumas lágrimas que desciam desenhando meu rosto. Eu definitivamente não queria levantar, queria fica ali... deitada... curtindo essas grandes experiencias que estão de fato me transformando por dentro. Olhei para cima, e notei que o céu azul já nos abraçava com sua tonalidade majestosa, fiquei ali pensando em tudo o que Yakecan dissera... meus olhos pareciam não me obedecer, e meus sentimentos pareciam ter vida própria, estava difícil controlar esses sentimentos. Passei então as mãos nos olhos e sentei. Olhei para a entrada da oca e novamente não vi os caciques, passei o olho na penumbra que ainda cobria aqui dentro e não vi mais nenhuma das índias. Eu sempre era a ultima a voltar? Pensei enquanto me levantava. Arrumei meus cabelos, joguei-os para trás e segui...
         O dia estava realmente lindo... levei algum tempo para me acostumar com a luminosidade, mas logo segui sob o sol que começava a sair por de trás das arvores. Lembrei-me da Danra e de papai, precisava vê-los de algumas forma... fui pra nossa oca. Enquanto caminhava notava que alguns irmãos nossos de tribo me olhava admirados, outros torciam o nariz pra mim. DEFINITIVAMENTE EU GOSTARIA DE SABER O PORQUE!! Minha vontade era de ir lá e perguntar, mas não... eu me contive e segui, também sem olhar na cara deles... Cheguei na oca, entrei. Olhei pensando ver a Danra ou papai, mas novamente estava vazia. Senti um desgosto tomar conta de mim e a ira tocando me profundamente. Procurei logo me conter, respirei algumas vezes puxando o máximo de ar que conseguia... não podia deixar que isso jogasse a baixo tudo o que eu estou conquistando.
          - Tudo bem... tudo bem... - dizia eu para mim mesma - eles vão aparecer em algum momento e tudo voltará ao normal...
          Ouvi um ronco e percebi que estava com fome, MUITA FOME  na verdade. Precisava comer algo urgente, pensei em voltar à floresta e procurar algo para comer, mas não... talvez haja um pouco de niguara para comer. Saí da oca e dei a volta por trás para procurar. Achei as toras de pau, onde cozinhamos nosso niguara, queimada. Toquei e vi que foi recentemente usada. olhei ao lado e encontrei uma cuia cheia de niguara e outras duas com beju e alguns peixes recém caçados. O bom era que estava frescos e recém cozinhados. Comi tudo em minutos, parecia que eu não comia a anos. Me senti satisfeita, precisava agora de um banho. Pensei. E segui para o rio...
          Atravessei a aldeia, cheguei na saraboya que dava para o rio e a trilhei. Logo já podia sentir a brisa gelada natural que emanava do rio caudaloso. Era realmente uma delicia sentir aquilo, me fazia transportar para mundos distantes... era o único lugar que eu poderia passar horas meditando.
         Antes de chegar ao rio eu parei, pois ouvi algumas risadas que vinham do rio, eram altas e pareciam muito bem humoradas. Quase que por extinto meus lábios se contorceram... pensei que estaria sozinha! pensei comigo, mas terei companhia, enfim... continuei até chegar no rio. Para minha surpresa notei que eram quase todas as índias que estavam comigo na oca, senti-me aliviada. Logo abri um sorrisão e entrei com elas. Aquela manhã, para mim, foi maravilhosa... estávamos todas nós, nos divertindo, jogando água umas nas outras, nadando, pulando, afundando, cantando e até brigando, porque eu né... se não houvesse uma briguinha não seria eu! Sorri.
        Ficamos assim nem sei por quanto tempo, alguns jovens índios se aproximavam, mas respeitosamente se afastavam, pois notaram que ali só haviam meninas. Adorava isso! Pensei. Depois de algumas horas me contive somente a observar os grupinhos que se formavam, fiquei com o corpo submerso apenas deixando para fora meus olhos e nariz. Ali pude notar que algumas das meninas se juntavam para conversar animadamente. Confesso que senti um dedinho de inveja... quem queria conversar comigo? Olhei pros lados e logo cheguei a conclusão... NIGUÉM! Mergulhei chateada, enfim... eu tinha que me acostumar...
        Fui até o fundo do rio, puxei um punhadinho de areia e subi deixando que elas se desfizessem das minhas mãos. Adorava essa sensação, era reconfortante... Subi para a superfície mais feliz. Chegando, notei um silencio abrupto no rio. Olhei pros lados e não vi nenhuma das índias. Ué, para onde foram todas?Pensei sem entender. Eu olhava inconformada para todas as direções e não via mais ninguém... não era possível que TODAS FORAM EMBORA E NEM ME ESPERARAM!!! Comecei a borbulhar de raiva, DE NOVO!!! Dessa vez não fiz o minimo esforço para me controlar, QUE COISA!!! Pensava xingando alto em minha mente. Meus olhos em fúria miraram o céu azul sobre mim e desceu sob a floresta, minha cabeça chamava todas as índias de todos os nomes de animais que eu conhecia, até que notei algo entre duas grandes arvores. Foquei o olhar espremendo um pouco a vista e notei que era um vulto escuro. Parecia me observar. Senti meu corpo congelar, senti câimbra nas pernas, vontade de correr! Isso são horas de acontecer?! Pensei tentando correr do rio. Olhei novamente o vulto e ele me encarava, vi que tinha os mesmos olhos amarelos dos que havia visto anteriormente. Gritei com medo enquanto corria. Eu estava inconformada e desesperada. A mistura disso deu num tropeço súbito. Eu caí batendo a cabeça no chão.Então ouvi vozes e senti varias mãos frias tocando meu rosto.
        - Natasha... NATASHA ACORDE!!! - diziam as índias enquanto me sacudiam.
        Eu despertei em choque na mesma situação de antes. Como se estivesse horas sem respirar debaixo d'água e de repente subisse emergindo puxando todo ar que conseguisse.
        - O... O QUE cof cof cof O QUE ACONT- ACONTECEU!? - Perguntei com os olhos arregalados, enquanto olhava na cara de cada uma delas.
        - Nós é que perguntamos... você saiu correndo do rio e caiu aqui desmaiada...
        - Eu o que? Peguntei indignada. - Vocês que foram embora e me deixaram aqui... - levantei a cabeça tentando ver o vulto novamente. Ele não estava mais lá. - E tinha... o... - tentava dizer, mas não conseguia, ou não queria falar.
       - Shhhhhh -  Fez uma das índias para mim. Esta me pôs gentilmente em seu peito como se quisesse me acalmar. Eu explodi jogando ela para trás. Todas me olharam me reprovando, eu as xinguei e saí correndo.
       - Estou perdendo a noção das coisas? Pensava enquanto sumia dentro da floresta. Como? Dizia para mim mesma enquanto me sumia na mata.
       -Eu conheço os costumes do nosso povo, se eu ficar assim vão me chamar de padalá , e serei sacrificada sendo enterrada viva! Não posso estar enlouquecendo... padalá NÃO!!!
       Eu estava completamente fora de mim. Não sabia o que fazer, ou o que falar. Precisava conversar com alguém... mas quem? Lembrei-me de Ceci, onde ela estaria? Precisava definitivamente dela... desabafar, chorar... gritar!!!! Ouvi um estalo na mata. Meu coração foi a boca. Olhei para trás e vi os mesmos olhos amarelos, dessa vez naquela onça negra. Eu parei estatelada. Sem reação. A onça deu um passo em minha direção, abaixou a cabeça lentamente como que se preparasse para avançar. Fiquei sem reação... minhas pernas amoleceram. Lembrei-me do irmão de Saíra que fora morto, e consecutivamente lembrei-me de Moara! Então ouvi um assobio, a onça virou a cabeça para trás em seguida me encarou. Naquele momento eu não identificava nada a minha volta, as arvores, os pássaros, o chão, o céu... TUDO ficou branco. A onça deu meia volta e sumiu na mata. Eu caí sem reação. Encostei-me numa arvore e chorei... chorei como uma criança sem pai e sem mãe. O que estava acontecendo? O QUE ESTAVA ACONTECENDO??? Era o que reverberava em minha cabeça... e fiquei ali, sob aquela arvore, tentando achar uma resposta para tudo aquilo...