quinta-feira, 22 de maio de 2014

Pagina 02 Dia simples

          Era umas cinco da manhã quando eu levantei. Minha mãe tinha acabado de preparar o niguara do papai que ia sair para buscar os Açuãs para os nossos rituais. Açuãs são galhos sagrados que só podem ser colhidos nos primeiros raios do sol, por isso que os homens da tribo saem tão cedo, eles são de uma arvore rara que nasce ao lado de cachoeiras fortes como a que temos a alguns quilometros daqui, eu ainda não tive a chance de conhece-la, mas certamente irei. Papai sai sempre junto de Amanary que é o pai de Ceci, inclusive acredito que ela já esteja acordada, pois houve certa movimentação na oca dela essas ultimas noites. Inclusive, tenho percebido Ceci muito agitada e distante, vou perguntar mais tarde a ela o que está acontecendo.
         Depois que papai saiu parece que tudo voltou ao silencio costumeiro, logo fui chamada pela Danra que é a minha mãe, tenho que a chamar assim, pois é uma classificação que ela conseguiu se sacrificando em um ritual, eu explico isso depois em uma outra pagina de meu diario. Minha mãe, a Danra, assim que papai saiu me chamou para tomar meu niguara, Niguara é uma comida nossa, somente nossa, feita de raizes e folhas estranhas, foi desenvolvida segundo minha mãe, pelos deuses da força Aui, eu ainda não sei quem são eles, mas ela costuma dizer que estão dentro de nós, como o nosso coração, ossos e tal... acho tudo isso um saco, não gosto dessas coisas, mas apesar de ser muito jovem sei que terei que aprender, ainda mais sendo filha de quem sou.
          Logo amanheceu, e eu já sai da oca, fui logo procurar Ceci. Demorei para acha-la, mas achei ela sentada aos pés de uma araucaria perto da nossa aldeia. Ela está estranha, nunca foi assim. Perguntei para ela, mas ela não me respondeu, estava nervosa.... Ficamos ali por alguns minutos, logo consegui ver o sorriso puro de Ceci, chamei ela para tomar banho no rio, mas ela se recusou, pois apontou o nariz pra Morara que estava nos observando de longe. Odeio Moara, ela é intrometida, feia, chata e fica se metendo onde não se deve. Chamei então Ceci para procurarmos as outras meninas para fazer algo, ela parece ter se animado, mas logo me chamou a razão da hora de preparar o niguara dos homens, eu tinha me esquecido que agora iremos assistir nossas mães fazer a comida para já ir aprendendo.
          O tempo passou, brincamos e agora estava cada uma em suas mães para assisti-las cozinhando. Que saco isso! Queria era estar correndo na mata sem hora para voltar, as vezes sinto que nasci foi no corpo errado, vejo os irmãos das outras meninas mais livres que nós...
          Minha mãe mexia a Içará com uma colher enorme enquanto pronunciava umas palavras que eu não entendia direito, era uma reza que somente as Danras da aldeia faziam, não sei pra que, mas a comida ficava uma delicia...