quinta-feira, 26 de junho de 2014

Pagina 16 Finalmente Ceci

          Levantei empurrando todas as índias que me seguravam. Fiquei de pé, e encarei Ceci! Seus olhos ainda eram os mesmos olhos meigos e amorosos de antes. Vê-la viva a minha frente era para mim um momento de radiante felicidade, meu corpo ainda estava mole, acredito eu, por ter me debatido de mais. Essa ultima experiencia me foi, de certo modo, muito intensa. Ainda sentia o cheiro forte das aranhas, pareciam estar impregnado em mim. Ceci veio e segurou minha mão, me deu um sorriso aliviado e eu retribui abraçando-a. Nem sabia que gostava tanto dela assim!Mas a apertei forte ao peito, na verdade eu acho que estava muito carente, era isso! Todas as outras índias  nos olhavam sem entender.
          - Ai Ceci... Que bom que está viva... - falei apertando-a ainda mais ao meu peito.
          - E não era para estar? - brincou ela retribuindo o abraço.
          Eu e Ceci sempre tivemos uma ligação muito forte, somos praticamente da mesma idade, separadas apenas por algumas luas. Nossos pais tem funções de importância na tribo e isso nos fazia diferentes dos demais. Sempre estávamos juntas, ou brincando ou conversando ou brigando, mas sempre juntas. Esses dias sem vê-la me deu um vazio muito forte. Era a única que me entendia, que me apoiava quando falava que queria ter a mesma liberdade que os homens de sair e caçar, essas coisas. Por que nunca fui a favor de ficar na aldeia para aprender a cozinhar e ser uma boa companheira. Nunca!
          Após abraça-la peguei em sua mão e a levei a um canto onde poderíamos estar em paz, sem olhos nos reprovando ou nos observando. Ceci veio, mas logo largou minha mão. A fitei rapidamente e notei seu semblante pesado. Queria saber de tudo o que tinha acontecido com ela, de tudo o que a fez se distanciar de mim. Sentamos no chão e nos apoiamos num dos troncos da Oca.
          - Ceci, tive um sonho muito estranho hoje... você estava...
          - Não foi um sonho Natasha - interrompeu-me ela me olhando nos olhos -  e você sabe disso.
          - Sei?
          - Estamos sendo todas observadas, todas...
          - Pois é... tem acontecido umas coisas estranhas mesmo, pelo menos comigo - falei enquanto desenhava com o dedo no chão - tive medo de me chamarem de... de... padála.
          - Que isso!?Claro que não Natasha! - Exclamou me repreendendo - Tem acontecido muitas coias com todas nós. Por isso estamos em observação...
          - É fácil falar, não foi nas suas costas aqueles olhares de reprovação.
          - Eu fiquei seis luas desacordada Natasha. - disse ela tirando o olhar de mim e fitando o vazio. - vi muitas coisas, senti também muita coisa... ate me revoltei, mas voltei e compreendi que para haver mudanças em nos mesmas terão que haver as revoltas, os desconfortos, as visões. Precisa se deixar bagunçar para depois por as coisas no lugar, entende?
          Fiquei em silencio, não sabia o que falar, fechei meus olhos envergonhada.
          - Por isso sumiu né? - perguntei fitando o chão.
          - Sim...
          Paramos de falar por um instante. Cada uma presa dentro de seus próprios sentimentos. Ceci estava realmente diferente, realmente mudada. Madura. Seu olhar meigo era o mesmo, mas suas atitudes e sua voz eram mais firmes.
          - Nunca mais ache que está enlouquecendo, Natasha, pois não está! Todas nós estamos enfrentando uma barra muito grande por estar aqui.
          - Não acho! - falei encarando-a -  Essas meninas tem a mesma cara desde o momento que estamos aqui. As únicas que vi mudando alguma coisa foram você e Saíra...
          - Eu tenho falado pouco com Saíra, onde será que ela está? - perguntou Ceci tentando acha-la na penumbra.
          - Não sei. - respondi sem interesse.
          Fiquei um tempo pensando nas palestras que tivemos dentro de nossos pensamentos, no que vi, no que senti enquanto desenhava furtiva peixinhos no chão.
          - Ah sim! - falei de súbito - Tem também uma indiazinha que nunca tinha visto na aldeia que estava desperta comigo nas palestras que recebemos de Yakecan.
         - Seria a Aiyra? - pergunto-me Ceci.
         - Ayra? Não sei! - falei - nunca perguntei o nome dela!
         - Deve ser -  disse Ceci voltando a me encarar - Ayira tem uma grande bagagem nas costas.
         - Bagagem?
         - Sim! Muitas responsabilidades para se fazer nesse mundo...
         - Como o que?
         - Ainda não sei... - disse focando o invisível novamente - Yakecan não falou muito.
         - Yakecan? - perguntei - você tem falado com ele?
         - Sim! - repondeu Ceci - ele tem sempre aparecido pra mim. Inclusive estava ao meu lado quando você despertou. Você não o viu?
         Senti, sinceramente, um pouquinho de inveja de Ceci, avergonhei-me e baixei o olhar.
         - Não...
         - Fique calma - disse ela ela tentando me animar - ele não aparece para todos ver. Só para alguns, mas...
         - Mas eu não pude ver, - interrompi - então isso que dizer que...
         - Não quer dizer nada Natasha... não é por que eu o vejo que sou melhor que você, apenas tenho a sensibilidade pra isso, nada mais!
         Parei um pouco pra pensar, e refletir. Ceci estava certa. Eu não o vi naquele momento, mas o tenho visto e sentido varias vezes em diversas ocasiões. Fiquei mais aliviada.
         Ficamos paradas sem falar por algum tempo, logo notei que Ceci ficava sonolenta e eu também, algumas das índias dormiam deitadas no chão. Sera que ia acontecer de novo? Que ia ser jogada a algum lugar desconhecido? Sera que iria para aquela floresta estranha novamente? Fiquei com medo, meu semblante certamente pesou. Olhei Ceci e ela já dormia encostada onde estava, e eu bocejava. Não ia relutar, pra onde for que fosse jogada eu iria, queria provar de mais e mais experiencias, aquilo tudo apesar de estranho era muito legal! pensei. Logo fechei os olhos do corpo e abri os olhos da alma, em algum lugar úmido e escuro...