segunda-feira, 23 de junho de 2014

Pagina 15 A Força Incontrolável

          "Filha... - falou a Danra, minha mãe - Tens agora que encarar seu próprio medo e deixar fluir de você o que é de você..."
          - Danra! Do que está falando? - Perguntei. Houve outro barulho, dessa vez acima de nós. Olhei e vi um vulto passando.
          "Todos temos uma força filha... todos temos nossos próprios poderes guardados no mais profundo consciente ... e é hora de conhecer os seus... desperte filha... Desperte!"
          - Não estou entendendo Danra! Que força? Que poder? Do que está falando?
          Outro barulho, dessa vez maior que os demais me fez saltar do chão. Eu naquele momento não sabia para onde olhar, meus olhos miravam a figura ímpar da Danra a minha frente, enquanto o medo me impedia de olhar para outras direções. Meu corpo vibrava, minhas pernas perdiam forças.
          "Encare seus medos filha, e sentirá assim fluir de você a sua verdadeira força, a sua força Auí, Desperte Filha!"
          - Força Auí? - Perguntei quando um som rasgado ameaçou a cima de nós. Olhei para o alto temendo o que veria. Minhas mãos estavam fechadas e tremendo. As teias de aranha estavam espalhadas por todas as copas das arvores, haviam vultos gigantescos cruzando os galhos acima de nós.
          - DANRA! - Gritei dando um passo para trás.
          "Sua mente filha, - disse-me ela olhando me com aquele olhar terno que me amolecia - acredite em você ... desperte o que há dentro de você, deixe que saia...
          Vi com clareza o vulto descendo por trás da Danra, minha mãe não se mexeu, era como se não estivesse vendo ou estivesse fora daquela realidade. Eu travei olhando as pernas enormes encostando no chão.


          - MÃE!!!!! - Urrei perdendo o equilibrio. Minhas mãos tremulas apontavam para atrás dela.
          Naquele momento o mundo parou. Como se tudo tivesse congelado, petrificado, nada mais pareceu existir. Ouvia apenas o som pesado e acelerado de minha respiração enquanto fitava os olhos ternos e piedosos de minha mãe que me encaravam como se esperasse algo de mim. Algo então saltou fazendo com que a Danra sumisse em um estalo de dedos, a ultima cena fixa naquele momento foi o de seus olhos me pedindo uma reação da qual eu não entendia ainda...
          A aranha gigante saltou atravessando onde minha mãe estava como se nunca estivesse ali. Despertei do transe caindo estupefata para trás. Encarei o monstro como uma criança encara seu maior pesadelo. Aquelas patas enormes e aqueles olhos que me encaravam me fizeram tremer de uma forma que nunca fizera antes. Gritei pondo as mãos em meus ouvidos e abracei minha perna. Nesse momento ouvi outro baque no chão, olhei pro lado e vi outra aranha vindo pelo meu lado direito. Não sei onde arrumei forças, mas saltei do chão e comecei a correr desesperada. Sentia as lagrimas descendo pelo meu rosto, mas minha agonia e medo não me fazia raciocinar por mim mesma. Olhei para cima enquanto corria e vi que outras duas aranhas preparavam para saltar no chão, olhei para trás de relance e vi que as outras duas estavam vindo com toda a velocidade, gritei enquanto pulava os troncos espalhado pelo chão. O cenário mudou novamente. Eu estava agora na mesma floresta de antes, seca, escura, opressa e abafada.
         Corri me jogando nas arvores enquanto duas aranhas vinham logo atras de mim. Havia milhares de troncos a minha frente e milhares de outros galhos jogados, eu tinha que fazer alguma coisa! Olhei para cima e vi com clareza outras duas aranhas descendo bem a minha frente. Me joguei no chão tomando o rumo pela direita, corri até encontrar algumas pedras enormes que serviriam para me esconder, antes de chegar um jato pregadiço atingiu as pedras antes mesmo de eu me esconder, saltei gritando e chorando. Outro jato atingiu a arvore que eu ia me apoiar para mudar de direção, olhei para trás e vi as quatro aranhas vindo trombando umas nas outras, havia acima delas cinco outras jorrando teia pegajosa para todos os lados. Continuei correndo até que despenquei numa ribanceira rolando ate o fundo. Havia ali vários galhos partidos, peguei um e continuei correndo. De repente saltaram três outras aranhas menores na minha frente, saltei a primeira , pisei a segunda e finquei o galho na terceira, elas caíram rosnando um som que nunca ouvira antes. Continuei correndo desenfreada, olhei de relance para trás e vi que duas delas subiam pelas arvores acima de mim, girei uma arvore e mudei de direção, outras duas menores saltaram a minha frente, chutei uma, mas a outra saltou sobre o meu peito, gritei me jogando numa arvore, e a esmaguei e cai. Olhei para cima e uma das aranhas gigantes saltou sobre mim. Aquele foi o pior momento! Senti seu cheiro de mofo e sua textura úmida e fria. Me arrastei no chão fugindo de suas patas grandes e desengonçada. rolei pelo chão ate sair de baixo dela e continuei correndo, cinco jatos despencaram do céu vindo de todas as direções,  corri tapando minha cabeça, saltei uma pedra a minha frente e peguei outro galho grande do chão, este pesava e joguei rumando na aranha que vinha a toda trombando nas arvores , olhei para frente e vi uma arvore gigante com uma abertura em seu tronco, tinha que ir pra lá! Continuei correndo enquanto chovia teia para todos os lados, algumas me pegavam e eu as puxava com as mãos, logo eu não sentia mais os meus dedos, mas continuava correndo. Quatro delas, do tamanho das minhas pernas, despencaram no chão, duas na minha frente e uma vindo de cada lado de mim, eu estava cercada! Uma saltou do chão pulando em minhas costas, outra sobre a minha cabeça enquanto outra sedava minhas pernas! Desequilibrei e tropecei numa pedra rolando para o buraco dentro da arvore.
          Não sei onde tirei forças ou coragem, mas saí dali com cinco pernas em cada mão e duas rasgadas e dilaceradas em minha boca, cuspi-las e continuei correndo. Outra aranha pularam em minhas costas, mas caíram, ficando pra trás. Virei de súbito para esquerda usando o chão como apoio no momento que uma aranha gigante caiu quase encima de mim, haviam mais aranhas gigantes, eu corria enquanto contava mais de três! Todas caminhavam pelos galhos grossos acima de mim. Eu corria sentindo minhas pernas e minhas forças se esgotando. Olhei para frente e vi uma ribanceira ingrime. EU TINHA QUE DESCER POR LÁ!! corri com tudo o que me restava. Olhei pro lado e vi que três delas vinham pela minha esquerdas, peguei no chão outra vara e continuei correndo. Outra rajada bateu no chão no momento em que ia fincar em uma aranha, saltei duas delas caindo em cima de mais duas, desequilibrei e caí rolando pela ribanceira, minha queda durou alguns segundo que pareceram horas. Bati o corpo numa pedra e minha cabeça quase numa arvore, senti o sangue descendo, olhei meio tonta para cima e vi uma avalanche de pernas descendo desenfreadas por onde desci. Levantei, pequei duas pedras e corri, olhei pra frente e vi um vulto branco cruzando umas das arvores a minha frente, meu coração foi a boca e voltou. Quem mais estaria aqui? Pensei enquanto rumava uma pedra em cheio numa aranha que descia por uma teia. Olhei para a direita não vi nada, olhei pra esquerda duas gigantes acabavam de descer no chão e vinha trombando uma na outra, o vulto reapareceu pela esquerda das aranhas, assustei, era uma menina menor que eu! Larguei as pedras no chão e corri sentido das aranhas, elas ergueram seus apêndices gigantes com as duas patas dianteiras como que fosse me pegar, prendi meu folego e me joguei rolando por baixo de uma delas, peguei uma vara no chão e finquei em seu abdomem. Ouvi seu urro agudo enquanto passava rolando pelo chão, me levantei e fui em direção ao vulto, ele estava parado me olhando. Aproximei quase sem folego parando sem acreditar. Era a Ceci, ela estava de alguma forma ali comigo.
          - CECI!!! Urrei para ela no momento que duas aranhas caíram sobre sua cabeça. Não sei onde consegui forças, mas naquele momento não vi mais nada, apenas ela tentando se livrar desesperada do ataque das aranhas. Voei sobre elas puxando pernas pra todo lado, peguei Ceci e joguei em minhas costas.
         - O QUE VOCÊ ESTA FAZENDO AQUI? - Perguntei quase sem folego.
         - Me ajude Natasha... Me ajude!!!
         Ver Ceci ali me deu animo para continuar, olhava para cima enquanto corria e via a enxurrada de aranhas se amontoando sobre as copas das arvores, eram centenas, milhares, perdi a conta. Dentre elas haviam dezenas de outras gigantes, contei cinco descendo por arvores imensas.
         Segurei os braços de Ceci em meu pescoço e corri as ultimas gotas de energia que tinha, minhas pernas cambaleavam, e o suor misturado com sangue descia pela minha cabeça despencando em gotas que ficavam para trás. Três outras aranhas saltaram sobre Ceci que gritou agoniada. Consegui tirar duas, a outra começou a tecer uma teia que adormecia sua pele, Ceci gritava e eu corria, outra aranha menor se jogou sobre meu peito e eu a esmaguei sem pensar, seu sangue grosso e fétido descia pelo meu peito me dando ânsia de vomito. Então ouvimos um som forte.
         - TA OUVINDO? - Perguntei pra Ceici.
         - SIM!!! Será o que estou pensando?
         - SIM, ACHO QUE SIM!!! - Disse entusiasmada.
         Parei atras de uma arvore imensa para tentar ouvir melhor o som, mas haviam sete aranhas vindo por baixo a minha cola.
         - É por ali! - disse Ceci apontando pra minha direita. Por sorte não havia aranha alguma por la. Apoiei Ceci melhor sobre mim e corri quase sem força alguma.
        - Vamos morrer... VAMOS MORRER!!!- Dizia Ceci olhando pra cima de nós. O numero de aranhas triplicou!
        - CALMA! ESTAMOS CHEGANDO.
        Corri até um espaço aberto que separava a floresta de uma fenda onde as águas de um rio forte despencava, era quase ensurdecedor ficar ali, quase não se ouvia os grunhos das aranhas. Ceci se animou e eu já não conseguia mais correr, meu coração parecia querer sair pela boca, minha respiração estava alta e minha boca seca demais. Olhei de relance onde estava as aranhas e vi um jato gigante saltado por uma aranha gigante. Tentei jogar Ceci pro lado para não atingi-la, mas foi tarde de mais, A aranha prendeu ela num emaranhado de fios pegajosos. Desesperei sem forças caindo no chão, olhei em volta e vi quinze delas descendo pela teia, outras cinco descendo pelas arvores mais próximas, e uma enxurrada de pequenos jatos se atirando por todo lado tentando me pegar. Uma aranha pegou Ceci, cortou a teia e subiu por cima das outras que desciam. Vi estupefata sua voz sumindo entre os grunhidos e o som estrondoso da cachoeira.
          - Ceci... CECI!!!!!  - Urrei tentando me levantar, mas não consegui.
          De repente uma outra aranha abriu seus apêndices e fincou em Ceci que gritou agonizando, seu sangue descia pelo casulo que fora levada. Meu coração parou! Não sentia mais meu corpo, aquelas milhares de aranhas pareceu congelar-se para mim. Entrei num estado de ira e agonia que nunca sentira antes, meu corpo formigou de raiva, meus olhos se espremeram, minhas mãos tremeram de ódio! Ceci sumiu no emaranhado de pernas e eu me levantei leve muito leve, estava sem o domínio de mim, senti meus cabelos menear, minhas vestes vibrar, o chão tremeu abaixo de meus pés, as arvores que sustentavam as aranhas retorceram e uma raiz enorme subiu me erguendo do chão. Uma forca absurda emergiu de mim. Então o chão explodiu subindo centenas de milhares de raízes pontudas como lanças que voaram como hastes rígidas de baixo pra cima fincando em tudo que estava a frente. Então tudo se apagou, e eu cai desmaiada.
         Apaguei... não sei por quanto tempo... quando acordei, já estava em meu corpo de carne. Senti muitas mãos me segurando, muitas vozes me chamando, enquanto eu me debatia do retorno do transe. O que aconteceu comigo? O que foi aquilo? Ceci, CADE CECI!? Eu perguntava, mas ninguém respondia, as índias me encaravam na oca escura como que tentando entender, então vi que alguém se aproximou por trás delas, era Ceci, ela estava linda, toda de branco e rosto angelical... sorri aliviada e apaguei inconsciente, dessa vez sem lembrar de mais nada.