quarta-feira, 13 de maio de 2015

pagina 18 Divino Espelho Dágua

     " Estranha sensação de leveza" era a única coisa que se passava em minha mente. Eu pisava naquela grama e a cada passo dado um conforto maior se apoderava de meu ser. Como era bom estar ali!!
     Olhei pro lado e entre as arvores puder ver a beleza de um distante lago prateado, senti vontade de ir até lá...
     - Natasha!!! - gritou Saíra, que segurava minha mão.
     Olhei pra baixo e quase dei um grito. Eu estava flutuando, quase a meio metro do chão. Saíra me segurava puxando pra baixo. Ouvi uma risadinha vindo da Danra que estava logo atrás de nós.
     - Mãe, o que esta acontecendo? - perguntei tocando os pés no chão.
     - Filha, não esqueças que não estas no corpo físico. Aqui, nessa dimensão, quase tudo é possível... E volitar está dentro das possibilidades. - e sorriu acariciando minha cabeca .
     - Mas que estranho... Acho que levitei quando pensei em ir ate aquele lago - disse olhando para o divino espelho dágua.
     - Em breve filha saberás controlar melhor teu corpo nesse plano paralelo...
     - Plano paralelo?
     - Isso filha, - disse-me ela com ternura - mas vou deixar que alguém em especial lhe explique melhor essa parte. - sorriu.
     Vi a Danra se afastando enquanto me banhava de incertezas. Não sentia medo, sentia algo forte em meu peito, como se fosse explodir, uma empolgação crescente...
    - Filhas... - disse uma voz em minha cabeca. Assustei salteada. Olhei pra saíra e ela estava assim como eu.
     - Ouviu aquilo Saíra?
     - Ué, você ouviu também?
     - Minhas pequenas, és chegado a hora da lição de vocês. Se aproximem...
     - Saíra, olhe! - apontei mais a frente. - É Kananciuê?
     Saíra notou que todas as índias já estavam sentadas em volta de um velho índio que trajava uma roupa altiva e clara. Dele emanava uma tênue claridade.
     - Nossa Natasha, estão todas lá... - disse me puxando pela mão - Vamos logo!
     Fui sendo levada pela mão macia e suave de Saíra, ambas corríamos leves, como se pudéssemos voar. Ver e estar ali, naquele lugar tão único me deixava aliviada e feliz. Por um momento me lembrei da aldeia onde meu corpo dormia. Lembrei-me de Ceci, lembrei-me de Moara. Naquele momento meu peito arfou, não gostei de ter lembrado daquela... senti que aos poucos eu fui mudando, a áurea que me envolvia, antes leve, pesou um pouco.
     - NATASHA! - berrou saíra do meu lado.
     - O que foi?
     Quando soltei a mão de Saíra percebi que eu não estava mais como ela, clara e irradiante. Olhei apreensiva para Kananciuê e ele me fitava com ternura enquanto as outras índias pareciam não me ver mais. De repente tudo rodopiou e meu corpo se fechou pesado. Voltei a sentir a mesma sensação do corpo físico. Senti frio e tive medo.
     " O que eu fiz.... O QUE EU FIZ!?" Me perguntava enquanto regressava repentina a meu corpo inerte e frio. Logo a sensação voltou. Raiva, ódio, e inconformação!
     - Nao quero voltar, NÃO QUERO VOLTAR!!!!
     Abri meus olhos físicos e notei que algumas índias caminhavam na maloca escura enquanto outras ainda doormiam no chão, provavelmente as que estavam no outro plano.
     - Voltei... - falei decepcionada .
     Não consigo explicar a sensação que senti naquele momento. Não sei se foi impotência, desilusão, agonia... Por uns segundos, que para mim, naquele momento, foram horas. Chorei sem uma lagrima derramar. Foi o mais doloroso dos choros... Parecia que minha alma se debandava em lagrimas. Foi horrível!!!!
     Fiquei sentada, encostada em uma tora de madeira ate ouvi os primeiros cantos dos pássaros. Eu senti, minuto por minuto, segundo por segundo o tempo rindo de mim. As índias que estavam acordadas foram a muito liberadas para suas malocas, ficando apenas as que dormiam e eu...
     Meu rosto sem expressão fitava sem vida um horizonte que não estava ali, que me baniu apenas por sentir o que sinto, o que eu sou por natureza... Aqueles últimos momentos estavam sendo os piores! Eu me martirizava me apunhalando, me sufocando, me agonizando. Ninguém era responsável por eu não ter conseguido, a não ser eu. Nem Moara teve, por mais que eu a quisesse morta, ela não teve culpa...
     O dia raiou, os caciques que ficavam na porta saíram, deixando a entrada da maloca aberta. E eu sai, sem vida...


... Continua.


M. L